Há duas semanas fui assistir o Swan Lake do Matthew Bourne. Uma releitura contemporânea do balé, com a mesma música de Tchaikovsky.
Plena quarta-feira a noite. Sai da aula e fui com a Cecilia até o NYCity Center tentar comprar ingresso para este espetáculo criado há quinze anos.
A proposta do Bourne era adaptar a história do Lago dos Cisnes para a realidade atual e montar os cisnes apenas com homens.
Sabem a cena do final do filme do Billy Elliot? Com a calça de penas e o grande salto? É deste espetáculo.
Teatro cheio. Apagam se as luzes. Meu lugar até que era bom (para o mais barato). Abrem-se as cortinas e aparece um cenário mega.
E eu penso cá com meus botões: lá vem. Um espetáculo com movimentos de dança contemporânea, com estrutura de balé clássico e super produção de musical da Broadway...
Bom... é.
Mas foi maravilhoso.
O coreógrafo jogou meus preconceitos no chão.
Sem libreto não sabiamos o que era a história antes dela se delinear na frente dos nossos olhos:
A história se inicia num ambiente de corte atual. Um jovem príncipe acorda em sua cama após ter um pesadelo, ou sonho, onde na janela acima da sua cama aparecia a figura de um cisne.
Criados entram em cena. Ele tem tudo a seus pés.. .Serventes se tornam a escada pela qual o príncipe desce da cama. O estereótipo acaba beirando a crítica e a ironia.
Logo a cena muda e somos apresentados a mais uma personagem - a rainha mãe.
Esta personagem é altiva e diferente de todo o resto.
A partir daí a história se desenvolve e a dança brinca com a cultura pop. Vemos personagens como a típica inteiresseira e os paparazzis. A pantomima e o virtuosismo se entrelaçam.
Ele satiriza tudo o tempo todo.
E eu desesperada pensando no pobre Petipa se revirando na tumba.
E então a história começa a mostrar a decepção na vida deste jovem cercado pelos deveres. Ele não tem ninguém para se apoiar. Suplica por um abraço da mãe e esta reluta e o afasta. (Tudo isto através da dança..)
Ele tem que se comportar de determinadas maneiras, mas no fundo só o que ele quer é ser livre. Sair das convenções.
A moça fútil por quem ele se encanta é um tanto quanto interesseira e aceita dinheiro para parar de vê-lo.
Num ato de desepero ele tenta se matar. E neste momento os cisnes aparecem.
Quem iria imaginar que homens poderiam se tornar tão etéreos e viris ao mesmo tempo.

Dizem que o pas de deux entre o príncipe e o cisne fez muitos homens se levantarem e sairem da apresentação quando este espetáculo foi apresentado pela primeira vez.
Para mim foi o início de uma metáfora. Que a princípio não entendi bem, mas que no final da apresentação estava muito clara aos meus olhos.
Os cisnes dançam a idéia do ataque, do formação em V de um bando de pássaros. Mas também representam a sensibilidade e a graciosidade deste belo animal.
E então segue a história. O príncipe desiste de se matar. Renova suas energias e volta para sua casa.
Num ambiente de festa ele é menosprezado pela mãe. E se sente ridicularizado pelos presentes. Num ato de loucura, com uma arma na mão ameaça a mãe e os convidados.
Um mordomo (o personagem mais macabro da história) atira na moça que ele estava apaixonado.
Mas o príncipe que se torna o vilão.
Muda a cena. (Para um dos momentos mais brilhantes - Porque até antes da morte da mocinha, tudo era bem previsível mas a partir dali não é mais).
Um fundo branco próximo a beirada do palco com uma porta e uma janela bem no alto cria um ambiente de hospício.
O príncipe é jogado por esta porta. E então a iluminação me deixou boquiaberta:
A sombra negra projetada neste fundo branco cria imagens que aqui eu não posso descrever.
É mais uma metáfora sobre o tamanho do ser humano. Como quando nos sentimos pequenos e insignificantes. Ou sozinhos.
Quando o príncipe entra neste local a sombra enorme representa sua solidão. E conforme ele anda em direção à janela distante ele vai ficando pequeno.
Nisto entra o médico e milhares de enfermeiras sem rosto. A rainha mãe com a sombra projetada maior do que todos os outros oprime este garoto.
Com movimentos pequenos, mas visíveis graças a iluminação fantástica desta cena, nos sentimos agredidos e perdidos como o príncipe.
Ele é então dopado.
De volta a sua cama ele acorda ainda sob o efeito das medicações.
E aí Tchaikovsky está chegando ao seu ápice musical.
Cisnes brotam da cama do príncipe.
Percebemos que tudo isto está acontecendo na mente do garoto.
Este grupo insandecido de cisnes ataca o garoto, e o cisne principal aparece e tenta o proteger a todo custo. Se sacrificando pelo garoto.
Os cisnes desaparecem da mesma forma como eles apareceram. E lá se encontra o príncipe deitado morto na sua cama. Vencido pela sua mente. O cisne que o protegia era aquele espírito que lutava pela liberdade do garoto.
A rainha entra no quarto e corre para abraçar seu filho. mas ele não pode mais sentir.
Na janela acima da cama onde a rainha sacode o corpo morto do filho, aparece a imagem borrada do cisne. Mas agora ele carrega o príncipe finalmente livre.
Eu seguro minhas lágrimas. Talvez a história seja muito apelativa. Não sei.
O que começou simples terminou complexo. E fui levada durante a história.
Vejo que a Cecília também está chorando.
Sai do teatro às 11 hs e fui a pé para minha casa murmurando o tema musical e com lágrimas ocasionais caindo dos meus olhos.
