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Sunday, April 15, 2012

Tempo - Jiri Kylian

Tempo que não há.
Minha noção de tempo se esvai.
O que antes parecia lento se torna natural.
Em cada detalhe cabem mil palavras de expressividade

Sentimentos traduzidos em gestos
Pura dramaturgia
Pesquisa dos significados

Jiri Kilian e Michael Schumacher criaram uma obra prima
Um dos trabalhos mais complexos que já assisti
Cada personagem é absolutamente único

Por mais que eu estivesse atenta
Eu perdia informações
Por mais que fosse tudo uma dança em slow motion
Eu não conseguia ver tudo

A senhora bêbada
O homem apaixonado
Um outro homem sem escrúpulos
Uma cena de estupro
Mas por pior que isso soe:
tudo era belo
e triste.


A vela no escuro.
As imagens refletidas nos espelhos.
Uma grande sucessão de imagens poéticas.
Metáforas únicas para mim,
e provavelmente únicas também para cada indivíduo na plateia

Histórias sendo criadas em minha mente
O tempo se alongou
E mesmo após o fim do espetáculo
“Last Touch First” continuou se estendendo e se recriando na minha mente

Fui em busca de histórias de Chekov
De fato, os personagens são complexos
Um reflexo cru e cruel da humanidade

O medo da morte
Frivolidades
Mentiras, decepções.
E a esperança de alguns.


"The departed sleep; the dear ones sleep!" the stranger mutters, sighing loudly. "They all sleep alike, rich and poor, wise and foolish, good and wicked. They are of the same value now. And they will sleep till the last trump. The Kingdom of Heaven and peace eternal be theirs." (“A bad Business”, by Anton Chekov.)


E então não me importo mais com o que tudo isso quer dizer
A memória grava um tempo novo
E isso se perde numa imensidão de pensamentos

A dança fica jogada em algum lugar do pensamento
Fluindo sem sentido
E paradoxalmente, com a maior coerência possível.

O espetáculo se tornou uma lembrança
Um turbilhão de sentimentos jogado no buraco negro da memória.
Tempo que se perde
Que para
Que dura para sempre.



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Assisti "Last touch First" no The Joyce em 10 Abril 2012.

Sunday, February 27, 2011

Paul Taylor Dance Company


Neste domingo tive a oportunidade de ir assistir o Paul Taylor Dance Company no New York City Center.
Quanto mais assisto as grandes companhias que são fruto da Dança Moderna americana, mais eu formo a minha opinião quanto à estrutura da Dança neste país.
Não tem jeito. Americano parte mesmo é da forma. Sem julgamento de valores, porque a transição entre formas é movimento, e isto é dança.
Mas enquanto a dança moderna da Alemanha valorizava a criação partindo do interior, a dança americana é completamente ligada ao conteúdo externo.
A Minha pergunta é: como encontrar um equilíbrio perfeito em uma dança que é genuína expressão artística e impressão estética?


Em relação ao espetáculo desta companhia eu esperava bem mais. Foram três obras deste coreógrafo, sendo duas antigas (da década de 70) e uma premiere.
Os trabalhos mais antigos foram interessantes, apesar de serem de certa forma um vocabulário de dança moderna (onde o corpo começa a desconstruir o balé clássico) numa estrutura bem quadrada.
O coreógrafo buscou pesquisar formas, iluminação e estrutura. Na foto acima (da primeira obra que assisti) simplesmente não houve interação com esta estrutura interessantíssima, eles só dançavam em volta de forma bem quadrada. Mas em compensação o Paul Taylor fez algo que eu sempre quis fazer: a coreografia foi feita com exatamente duas partes iguais, mas com dois elencos diferentes repetindo os movimentos, um após o outro, com duas músicas diversas. Algo bem bacana em termos de relação dança e música.
A outra remontagem dele foi um mix de baile antigo com experimentação estética dos anos 80. Muito estranho. Mulheres de vestido longo e chapéus de espelhos futuristas que refletiam a iluminação. Homens de ternos que dançavam elegantemente e de repente pareciam animais.
E a coreografia mais recente dele foi uma miscelânea meio duvidosa. Alguns pontos interessantes e bailarinos lindíssimos capazes de qualquer coisa, mas coreograficamente foi bem bobinho. Forçando a barra para ser escrachado. Ele quis fazer parodias de diversas coisas. Um bêbado, um bando de isadoras (duncan), plebeus de um feudo, Adão e Eva e uma sapateadora de dança irlandesa. Era propositadamente bobo e superficial, ou eu não entendi nada mesmo.
Enfim, é sempre bom ver estes espetáculos, formar uma opinião, e conhecer os coreógrafos que começaram a mudar as coisas.

Thursday, February 10, 2011

Drops - 5 segundos

Como não tive tempo e andei (mais) enlouquecida do que nunca, não pude fazer todos os posts culturais das coisas que tenho feito por aqui...

Então em frases resumidas meu drop cultural de 5 segundos por espetáculo:

27-01
New York Philarmonic Orchestra No Lincoln Center
Beethoven, Sibelius e Nielsen

Apesar de todo o luxo de se assistir uma das melhores orquestras do mundo fiquei um tantinho decepcionada. A acústica do teatro não era das melhores e mesmo sentando num bom lugar minha expectativa era muito alta. A 8a Sinfonia de Beethoven não é das minhas favoritas (é uma das obras que estou analisando neste meu semestre) e foi a primeira obra tocada neste concerto. Mas em compensação assisti a melhor soprano que já ouvi cantando - a Karita Mattila.

30-01
Balé Folclórico da Bahia no NYU Skirball Center

Que orgulho do meu país. Não conhecia o trabalho desta companhia, nem dos seus diretores Walson Botelho e José Carlos Arandiba. E confesso que fui assistir a apresentação com a pura intenção de reviver minha cultura e ouvir um pouco de Português que pudesse aquecer meu coração. E sem dúvida nenhuma foi algo que me encheu de alegria. Para quem estuda dança (e principalmente alguém como eu que fez aula de danças brasileiras com a Graziela Rodrigues) o meu olhar crítico é sempre meio descrente.
Óbvio que se eu fosse ser chata eu poderia dizer que o espetáculo teve alguma estilização das manifestações de danças brasileiras. Mas, sinceramente, isso não importa. O que importa é que o público levantou das cadeiras e dançou ao final do espetáculo durante uns 15 minutos. E a platéia não era de brasileiros.

03-02
Danspace project presents: Plataform 2011 - Body Madness na Igreja do St. Marks
(Sim. Isso mesmo. Assistir dança contemporânea loquérrima dentro de uma igreja que retira todos os bancos e se transforma num templo da expressão.)

1."Voix de Ville" de Cori Olinghouse:
Trabalho muito interessante em que os cinco bailarinos-coreógrafos desenvolviam um espaço nonsense que partia das danças de Vaudeville (sabe aqueles passinhos precursores de musical americano, clube francês, charles chaplin?) e que se transformava completamente. Segundo o programa eram experimentos em Vaudeville e shapeshifting.

2. "Itsuko San" de Kota Yamazaki
Solo Butoh contemporâneo doidíssimo de um japonês inteiro vestido de pink com uma maquiagem noir macabra. Movimentos estranhos, música annoing, e mesmo assim fascinante. Acho que estou refinando (ou cultichatando) meu gosto artístico.

3. "Elements of Vogue" de Archie Burnett e Javier Ninja
Absolutamente fantástico. Olha o meu gosto pop art tomando conta. Estes dois artistas não saíram de nenhum meio formal de dança, mas sim de boates! Simplesmente sarcástico, perspicaz e além das palavras.

06-02

1. Moma
Não tem nada como este museu. Vontade de ir lá toda semana isso sim.
Inspiração pura.

2. Mamma Mia no Winter Garden Theatre
Simplesmente o melhor musical que eu já assisti. (Não que eu tenha assistido muitas produções aqui na Broadway. As versões brasileiras, por melhores que sejam, não contam. Entre todas as minhas idas e vindas por aqui só tinha visto Cabaret, Mary Poppins e A pequena Sereia). Alegre, feliz, divertido. Tão bom quanto o filme. Elenco brilhante.
Óbvio que contém todos os chavões de uma peça musical, mas tudo isto se torna hilário somado à um bom spandex branco, salto alto e muito brilho.
Este musical me fez lembrar de algumas das minhas melhores amigas queridas (Alana e Parpina), pois lá num período longínquo fomos assistir a versão em filme e choramos feito condenadas...

Saturday, October 30, 2010

Swan Lake do Matthew Bourne





Há duas semanas fui assistir o Swan Lake do Matthew Bourne. Uma releitura contemporânea do balé, com a mesma música de Tchaikovsky.
Plena quarta-feira a noite. Sai da aula e fui com a Cecilia até o NYCity Center tentar comprar ingresso para este espetáculo criado há quinze anos.
A proposta do Bourne era adaptar a história do Lago dos Cisnes para a realidade atual e montar os cisnes apenas com homens.
Sabem a cena do final do filme do Billy Elliot? Com a calça de penas e o grande salto? É deste espetáculo.
Teatro cheio. Apagam se as luzes. Meu lugar até que era bom (para o mais barato). Abrem-se as cortinas e aparece um cenário mega.
E eu penso cá com meus botões: lá vem. Um espetáculo com movimentos de dança contemporânea, com estrutura de balé clássico e super produção de musical da Broadway...

Bom... é.
Mas foi maravilhoso.
O coreógrafo jogou meus preconceitos no chão.
Sem libreto não sabiamos o que era a história antes dela se delinear na frente dos nossos olhos:

A história se inicia num ambiente de corte atual. Um jovem príncipe acorda em sua cama após ter um pesadelo, ou sonho, onde na janela acima da sua cama aparecia a figura de um cisne.
Criados entram em cena. Ele tem tudo a seus pés.. .Serventes se tornam a escada pela qual o príncipe desce da cama. O estereótipo acaba beirando a crítica e a ironia.
Logo a cena muda e somos apresentados a mais uma personagem - a rainha mãe.
Esta personagem é altiva e diferente de todo o resto.
A partir daí a história se desenvolve e a dança brinca com a cultura pop. Vemos personagens como a típica inteiresseira e os paparazzis. A pantomima e o virtuosismo se entrelaçam.
Ele satiriza tudo o tempo todo.

E eu desesperada pensando no pobre Petipa se revirando na tumba.

E então a história começa a mostrar a decepção na vida deste jovem cercado pelos deveres. Ele não tem ninguém para se apoiar. Suplica por um abraço da mãe e esta reluta e o afasta. (Tudo isto através da dança..)
Ele tem que se comportar de determinadas maneiras, mas no fundo só o que ele quer é ser livre. Sair das convenções.
A moça fútil por quem ele se encanta é um tanto quanto interesseira e aceita dinheiro para parar de vê-lo.
Num ato de desepero ele tenta se matar. E neste momento os cisnes aparecem.
Quem iria imaginar que homens poderiam se tornar tão etéreos e viris ao mesmo tempo.



Dizem que o pas de deux entre o príncipe e o cisne fez muitos homens se levantarem e sairem da apresentação quando este espetáculo foi apresentado pela primeira vez.
Para mim foi o início de uma metáfora. Que a princípio não entendi bem, mas que no final da apresentação estava muito clara aos meus olhos.
Os cisnes dançam a idéia do ataque, do formação em V de um bando de pássaros. Mas também representam a sensibilidade e a graciosidade deste belo animal.

E então segue a história. O príncipe desiste de se matar. Renova suas energias e volta para sua casa.

Num ambiente de festa ele é menosprezado pela mãe. E se sente ridicularizado pelos presentes. Num ato de loucura, com uma arma na mão ameaça a mãe e os convidados.
Um mordomo (o personagem mais macabro da história) atira na moça que ele estava apaixonado.
Mas o príncipe que se torna o vilão.

Muda a cena. (Para um dos momentos mais brilhantes - Porque até antes da morte da mocinha, tudo era bem previsível mas a partir dali não é mais).

Um fundo branco próximo a beirada do palco com uma porta e uma janela bem no alto cria um ambiente de hospício.
O príncipe é jogado por esta porta. E então a iluminação me deixou boquiaberta:
A sombra negra projetada neste fundo branco cria imagens que aqui eu não posso descrever.
É mais uma metáfora sobre o tamanho do ser humano. Como quando nos sentimos pequenos e insignificantes. Ou sozinhos.
Quando o príncipe entra neste local a sombra enorme representa sua solidão. E conforme ele anda em direção à janela distante ele vai ficando pequeno.
Nisto entra o médico e milhares de enfermeiras sem rosto. A rainha mãe com a sombra projetada maior do que todos os outros oprime este garoto.
Com movimentos pequenos, mas visíveis graças a iluminação fantástica desta cena, nos sentimos agredidos e perdidos como o príncipe.
Ele é então dopado.

De volta a sua cama ele acorda ainda sob o efeito das medicações.

E aí Tchaikovsky está chegando ao seu ápice musical.
Cisnes brotam da cama do príncipe.
Percebemos que tudo isto está acontecendo na mente do garoto.
Este grupo insandecido de cisnes ataca o garoto, e o cisne principal aparece e tenta o proteger a todo custo. Se sacrificando pelo garoto.

Os cisnes desaparecem da mesma forma como eles apareceram. E lá se encontra o príncipe deitado morto na sua cama. Vencido pela sua mente. O cisne que o protegia era aquele espírito que lutava pela liberdade do garoto.
A rainha entra no quarto e corre para abraçar seu filho. mas ele não pode mais sentir.
Na janela acima da cama onde a rainha sacode o corpo morto do filho, aparece a imagem borrada do cisne. Mas agora ele carrega o príncipe finalmente livre.

Eu seguro minhas lágrimas. Talvez a história seja muito apelativa. Não sei.
O que começou simples terminou complexo. E fui levada durante a história.
Vejo que a Cecília também está chorando.
Sai do teatro às 11 hs e fui a pé para minha casa murmurando o tema musical e com lágrimas ocasionais caindo dos meus olhos.



Friday, September 24, 2010

Review de "Singular Sensation", coreografia de Yasmeen Godder. Teatro The Kitchen, NY.

Ok. Você mora em NY. Quer viver de dança. Assiste uma premiere de um espetáculo junto com duas das maiores professoras do seu departamento e sabe a opinião delas sobre este espetáculo. O que você diria para as pessoas que lêem seu blog e que imploraram para você não virar uma intelectualóide new yorker metida e chata?
Então vamos ao review...
...

Yasmeen Godder é uma coreógrafa israelense, ex-aluna da TSOA, que tem trabalhado com Dança Contemporânea em Tel Aviv e vivido na ponte aérea NY-Israel. A proposta deste trabalho que assisti era de explorar as paisagens emocionais de uma geração desensibilizada pelo excesso de informação e por excessos de todos os tipos. Ela pretendia criar uma conexão com as sensações humanas. (tradução livre do programa)

Do ponto de vista emocional este trabalho é absurdamente visceral. O exagero dramatúrgico completo. Risadas, choros. Fiquei estupefata. Sabe todos aqueles movimentos proibidos socialmentes de serem feitos? Estavam lá. Sexualidade e narcisismo escancarados. Um tapa na cara. Bombas. Me senti no oriente médio. Mas senti que este oriente médio dançado pelos bailarinos israelenses não estava tão distante assim dos personagens de arquétipos culturais de danças brasileiros como exu, pomba-gira e outros.
Música psicodélica, psicótica, psicopata.
Cinco bailarinos completamente diferentes que não dançaram juntos quase em nenhum momento. A sensação era que eles não estavam dançando, mas nos sobrecarregando de informações emocionais. Mas isso não quer dizer que tudo parecia uma grande improvisação, pelo contrário, o trabalho era tão bem coreografado que fluia como se não fosse. Percebia-se que tudo que estava sendo feito era absolutamente harmônico, ou desarmônico intencionalmente, porque o trabalho físico e das relações entre os bailarinos era extremo.
Perceberam se eu gostei?
Sim, mas porque fui preparada e aberta para assistir qualquer coisa.
Arte contemporânea é indigesta, seletiva. Quem tem paciência para tanta intelectualização e abstração? Às vezes só aqueles que trabalham na área.
Das sensações ao nonsense completo: de um bailarino sendo bombardeado (seus movimentos davam esta idéia), a uma bailarina com cara de top model fazendo tudo "inadequado" de possível com unhas gigantes de pimenta. Ela come as pimentas e cospe. Um bailarino faz "xixi" (de mentira) de tinta verde em outro.
Mesmo quando havia um bailarino com meia bege na cabeça, óculos de natação nos olhos, plástico enrolado na cabeça, papel enfiado nas orelhas que davam sensação de antenas e enchimento na região dos bíceps, criando a ridícula imagem de um super herói alieníngena, este trabalho enlouquecido foi inspirador.
Prometo que não estou maluca.
Mas foi tão diferente de tudo que já vi, libertário e desafiador que me mantive interessada do começo ao fim.
Até mesmo nos anti-clímax em que uma bailarina começou a estourar pequenas bexigas presas em partes estratégicas do corpo dela com uma tesoura pontiaguda. Tinta voava em direção à plateia.
Confete que aparecia do nada sob a cabeça de um casal de bailarinos que se amava e se matava em cena. Prazeres e dores.
E então veio a massa de macarrão spaguetti que caiu se esparramando pelo linóleo branco.
E por último essa gelatina vermelha que foi trazida e colocada no meio do palco. Então pisada pelo bailarino alieníngena. E outros bailarinos mergulharam na gelatina pisoteada, começaram a nadar nela e se eu não me engano alguém comeu essa gelatina. Era muita informação o tempo todo. E paradoxalmente todas essas bizarrices aconteciam de forma dançada e natural.
Vai entender?
Bom, mas se dança fosse algo que a gente entendesse com palavras ninguém dançaria...

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