Devaneios artísticos de uma bailarina-coreógrafa vivendo pelo mundo. Pensamentos. Trabalhos. Alegrias e tristezas. Tudo e Nada.
Wednesday, June 18, 2014
A vida dói.
Meu hiato em escrever é prova que parei de olhar ao meu redor, parei de querer ser criativa, parei de ter prazer em pensar e ser artista. Mergulhei na prática dura do dia a dia. Nas mil tarefas de ser coreógrafa aqui em NY. Em ter 5 empregos, 4 não pagos, e 1 money maker degradante.
Me sinto humilhada por estar comendo o pão que o diabo amassou. Uma coisa é vir atrás do sonho, cheia de orgulho e esperança. Outra é enfrentar as dificuldades diárias, profissionais e financeiras.
Mas não estou mal. Estou no melhor ponto que já estive como coreógrafa. Estou cada vez mais me aprofundando na minha pesquisa criativa e tenho consolidado minha companhia com um trabalho regular com minhas bailarinas e colaboradoras. Só é muito difícil. Fazer dança contemporânea numa cidade onde tem tanto artista de qualidade gera muita pressão. Mas mais do que isso, para coreografar e manter trabalhos artísticos aqui dependo de estar constantemente fazendo contatos, criando relacionamento com doadores e público americano. E fica difícil, quando minha vida inteira foi no Brasil. E só agora as pessoas estão ouvindo meu nome. Em suma, é um trabalho de criar reconhecimento e criar contatos. E vamos falar a verdade? Não sou lá uma pessoa extrovertida e social. Não sou mais anti-social, como era há alguns anos atrás. USA me fez aprender a me apresentar para gente que não conheço, começar conversas na minha área e demais demandas dessa sociedade esquisita. Mas mesmo assim, sempre tem uma mini-barreira da língua. Nunca vai ser a mesma coisa que conversar o bom e velho Português.
Tenho agora mais do que nunca buscado achar o meu eu de anos atrás. Meu eu estudante era muito mais positivo do que meu eu da vida real. Essa busca me faz olhar para dentro e ver o que está faltando. A disciplina de dançar quando não se tem mais uma escola. De me manter fisicamente ativa da maneira que amo, sendo que é tão difícil encontrar aulas que me satisfaçam. Dói olhar para dentro e ver minhas falhas. Dói escrever sobre elas. Mas escrever sempre foi meu desabafo e válvula de escape, então acredito que quando crio coragem de fazer o que estou fazendo agora, estou andando para frente.
A vida dói porque a gente fica preocupada com o que falta, com o sucesso que a gente ainda não alcançou, com tudo que a gente quer fazer e ainda não conseguiu. A vida dói porque colocamos muito peso no futuro, e esquecemos do agora. E o agora já passou. Mas sentir dor é algo bom. Me faz humana, me faz prestar atenção e acordar. Acordar para o agora, acordar para a hora da mudança. E acordar para a felicidade e sorte que já tenho: minha maior felicidade são as pessoas na minha vida. As pessoas que estão pertinho e as que estão longe. Meus amigos aqui. Minha melhor amiga que vai casar. Minha família no Brasil. Meu marido para quem volto correndo para casa todos os dias. Me sinto muito abençoada no âmbito familiar e pessoal. Quantas pessoas podem dizer que estão mais da metade da sua vida com o mesmo companheiro, e que o relacionamento só melhora com os anos?
Enfim, a vida dói. Mas tem que doer mesmo... para a gente crescer.
E no final das contas tudo vai passar: corpo vai morrer, carreiras acabam e recomeçam, dinheiro vem e vai embora, coisas materiais apodrecem. Mas as experiências com as pessoas que convivemos é eterna. E está aí a vida verdadeira.
Foto tirada pelo Nicolas comigo voando e Allie Tsubota numa dança instalação que fizemos em Abril.
Friday, July 27, 2012
Geladeira, sangue e croissant.
Tuesday, February 14, 2012
Dias impossiveis...
Dias impossiveis acontecem de vez em quando. Ontem foi um dia impossivel. E eu sobrevivi.
Saturday, February 4, 2012
Back to business!!!
Sunday, December 4, 2011
Dia- agora.
Sunday, November 13, 2011
Lá vem uma semana daquelas...
Ai meu Deus
Segunda nem começou e eu tenho a sensação de que eu não parei...
Quer dizer...eu não parei.
Da filmagem de hoje a tarde, aos orçamentos, até escrever projetos, trabalhos batendo na porta e não vai dar tempo!
É oficial essa é uma das semanas do ano q eu não consigo entender como vou sair viva no final...
Tenho que:
Enviar dois orçamentos para minha professora de arts administration.
Escrever uma carta de apresentação para um patrocinador/empregador em potencial.
(E isso é a lição de casa atrasada da semana passada que enviarei por e-mail)
Para essa semana tenho que escrever um exemplo de projeto que será corrigido e avaliado.
Além disso tenho que criar meu website em inglês, pagar pelo domínio do website.
E escrever um "Artist Statement" e um "Mission Statement" que são basicamente um resumo de quem sou eu, meus ideais artísticos, interesses e aptidões.
Mas como não sou boba, estou ralando e usando a lição de casa como impulso para escrever os projetos que estarei enviando para alguns locais assim que terminar meu mestrado.
Estou fazendo um projeto para uma residência artística em uma Universidade em Ohio.
E também estou trabalhando em um projeto dança - vídeo -instalação - performance a ser apresentado aqui em NY.
Tenho trabalhado por minha conta em aprimorar meu currículo e Resume.
E fora a lição de casa dessa aula de Arts Administration que está fazendo eu arrancar os meus cabelos (mas ao mesmo tempo está sendo a aula mais útil/ prática da vida real que já tive em toda minha vida escolar) tenho outras coisas colaborando para o caos da semana.
Na segunda que vem tenho que entregar um rascunho de um trabalho de 14 páginas para minha aula de música no século 20 (porque meus professores de música são sempre sem noção?).
E detalhe: eu sequer comecei.
E fora isso essa semana a Sra. Coreógrafa ultra power, com seu cachorro maluco que anda no meio dos ensaios, está de volta. Aposto que no momento que a Azsure Barton voltar a nos coreografar ela vai presumir que todo mundo lembra de todos os milhões de sequências de movimento. E depois ela vai mudar tudo, dar um nó no nosso (meu) cérebro, fazer a gente se jogar no chão de cabeça. Contar até 5, depois até 12, abre a boca, faz braço de patinho, conta até 27, faz um movimento numa contagem com as mãos, circula a cabeça em outro tempo, conta até dois, e as pernas é pé fazem outra coisa completamente esdrúxula, conta até dois mil, tudo ao mesmo tempo. e a música é psicodélica impossível de contar. Então todos os bailarinos aprendem a contar do jeito irregular estranho que ela pede.
Esse tem sido o processo com a Azsure. Muito educativo, inspirador, intenso, insano, físico e impossível. Mas eu estou dando conta até agora.
E (on top of all that) para coroar minha semana from hell:
Essa semana eu estou teching!!!! Ou seja, estarei no backstage de um dos concertos da Tisch trabalhando toda a semana das 7hs até as 11hs!!!
Se eu terminar essa semana viva eu aviso.
Monday, March 14, 2011
Sorte ou Azar?
Tuesday, February 22, 2011
Ques't que la fait rire?
Sunday, December 5, 2010
Dia a dia. Desafios e conquistas.
E esqueço de escrever sobre as conquistas:
Eu saio do metrô e sei onde está o céu, e onde devo ir pra atingir meu destino.
Eu consigo achar um almoço saudável por U$3,50.
Eu nunca me senti mais em casa.
A língua não me assusta, as conversas são fáceis.
A escrita me descabela, mas não morro mais de falta do Português.
E quando eu sinto falta eu canto.
E por falar em canto, essa universidade continua quebrando minhas barreiras.
Ou melhor, eu cada vez mais me dasafio.
Estou criando: danço e canto de cabeça para baixo. Só o começo de mais um processo criativo.
Sempre feliz neste lugar.
Os bailarinos talentosos me motivam a crescer.
Não me intimidam porque eu sei que cada um no mundo tem algo a oferecer que é único.
E eu não poderia ser diferente.
Satisfeita de finalmente entender isso.
Preparando mais trabalhos para o próximo semestre.
Como esse meu curso é só dois anos, preciso dar conta de fazer tudo que eu puder imaginar:
Um duo com a Cecilia. Eu canto. Ela fala em Mandarim e eu respondo em Português. A gente dança.
Fui convidada para dançar em mais dois trabalhos de amigas do MFA.
E vou coreografar um trabalho para oito mulheres. Só MFAs desta vez, todas absolutamente diferentes. Praticamente 8 solos que se cruzam na minha mente.
E todos estes trabalhos serão apresentados no MFA1 Concert, em Fevereiro.
Depois da volta às aulas eu tenho 1 mês para dar conta de coreografar 2 trabalhos e estar dançando em 3.
Corpinho querido: aguenta.
Mas tudo isso sem parar a vida normal, com aula das 8am-8pm.
Aula extra de lighting design aos sábados.
Criação de um solo para a disciplina de composition.
E ensaios para CC&D...
A aula de CC&D foi um dos motivos para eu vir fazer esse mestrado aqui.
Nesta aula, durante o primeiro semestre, foram abordados diversos aspectos da composição e criação em Dança.
Basicamente aprender a julgar menos e a jogar.
A colocar texto e movimento em sintonia, numa forma que eu nunca havia pensado ser capaz de fazer.
Tarefas malucas e aparentemente impossíveis, que sempre resultam em algo.
5 minutos, escolho 7 bailarinos, monto uma coreografia, e apresento para o resto da classe.
Foi mais ou menos por aí esse meu curso.
Mas o próximo semestre que é o grande astro.
Fomos divididos em grupos, de acordo com nossos interesses.
Cada parceria vai criar um trabalho em colaboração com uma equipe de cenário, uma de iluminação, outra de figurino, e é claro, com uma equipe de músicos.
E todos em função da dança.
Basicamente podemos fazer o que quisermos. (Desde que não coloquemos fogo no teatro.)
Pois temos orçamento da disciplina para inventarmos o espetáculo mais mirabolante que for.
Estou muito animada, porque tem bailarinos voando na minha mente.
Criei coragem e convidei bailarinos maravilhosos, inclusive a melhor bailarina que já vi ao vivo.
Ida Saki. Ela está no 1o ano, mas tem companhias guerreando por ela. É a garota do "So you think you can Dance?" que desistiu do reality show para vir fazer a graduação na NYU.
Ainda estamos esperando a resposta, mas acho que vai ser sim.
De qualquer forma já temos um elenco que por si só já é incrível.
E fui convidada para dançar no trabalho de CC&D da equipe de minhas colegas de MFA formada pela Cecilia (que achei que a esse ponto já estaria de saco cheio de trabalhar comigo e iria querer alguém novo) e da Suzanne Beahrs, que na minha opinião é a coreógrafa mais talentosa do meu curso. Ou seja: big pressure.
C´est la vie.
E assim vou.
E espero que o trabalho não pare nunca.
Sunday, October 24, 2010
Central Park - Post longo e cheio de fotos...
Devia ter nascido impressionista.
Andei mais uma vez no Central Park e me apaixono pelas árvores e pelos milhões de tonalidades de verde no amarelado das folhas.
O Outono chegou e já está frio.
Se eu pudesse levar vocês ao Central Park junto comigo seriam estes os detalhes que eu gostaria que vocês vissem.
Mas adoro os detalhes de arquitetura.
Os ladrilhos e os desenhos formados pelo concreto e pelo vazio.
As sombras que se formam.
Os relevos.
As luzes que atravessam os tantos tuneis espalhados pelo parque e causam imagens tão belas que minha máquina não consegue captar.
E os artistas de rua, então?
Tem sempre música.
As vezes eu corro por lá e passo por um túnel onde uma cantora solitária canta La vie en Rose na acústica ampliada do túnel. Estou em NY ou em Paris?
Tem sempre um show.
Adoro quando tem alguém tocando contrabaixo no metrô.
Ou então Mariachis.
Ou New York New York.
(E tem sempre alguém passando o chapéu!)
Mas esse pai e filho tentando ganhar um dinheirinho fazendo bolhas de sabão gigantes foi lindo.
Não.
Não passo minha semana só turistando.
Passo minha semana só correndo, estudando e trabalhando.
Dança dança e dança.
Minha última semana foi o cão.
Foi a mais difícil de todas.
A saudade bateu como nunca.
Doeu.
Mas eu amo essa cidade e amo viver aqui.
Mesmo estando sozinha.
Acho que nunca vou cansar de passear lá.
Estava batendo a cabeça na parede do meu quarto cubículo, sozinha.
Sábado ao anoitecer. Ninguém no skype.
Todos meus amigos e familiares na festa de 1 ano da minha afilhadinha do coração.
Onde não pude ir.
Tantos trabalhos por fazer. Leituras, diários de espetáculos, de aulas.
Assignment impossível do meu professor ditador de música.
E nada saia.
Deu cinco minutos e fui andar sozinha no Central Park e tirar estas fotos aqui.
Sabiam que a maioria dos bancos tem uma plaquinha como essa aí em cima?
É lindo ficar apenas lendo e pensando nestas pessoas. Nestas homenagens despercebidas, mas sempre presentes.
Sentei na mureta da beira do lago onde tem a boat house e fiquei tirando fotos.
Fiz algumas tentativas fracassadas de tirar fotos de mim mesma.
Uma senhorinha chinesa (sempre as chinesas não é mesmo?) apareceu do nada, olhou para mim com carinho e meio sem jeito e perguntou se eu não queria que ela tirasse uma foto minha...
Então segue uma foto comigo dentro:
Nas próximas três semanas estarei endoidecida com as minhas apresentações.
Tenho a estréia da minha coreografia em duas semanas.
E danço na coreografia de uma amiga em três.
Então talvez eu não consiga escrever muito.
Mas já viram que eu estou inteira.
luv
k
Sunday, October 17, 2010
Oreo
São 3:30 da madrugada.
Não consigo dormir
Passei parte da noite conversando com minha única amiga brasileira sobre as desilusões de morar em NY.
Cidade cara, imperam a imagem e o dinheiro.
E eu lutando para sobreviver e dar conta dos meus estudos.
Deus, me permite dar o meu máximo e ganhar uma bolsa de estudos.
Sem detalhes hoje.
Odeio dinheiro.
Chorei, me senti sozinha.
Humilhada.
No meio da madruagada pego o final do meu pacote de bolacha oreo e aproveito os pequenos prazeres.
Mergulho uma bolacha de cada vez no leite gelado.
E o pacote gigante comprado numa barganha no Kmart finalmente acaba.
Tuesday, September 14, 2010
Drops
Ontem ao entrar no metrô presenciei um morador de rua na situação mais deplorável que já vi, quis chorar.
Ontem passei fome, passei mal. Em compensação hoje comi banana e uvas passas o dia inteiro.
Hoje fiz audição para aula de pontas. Fui corajosa e não fui mal, minha relação com audições está melhorando.Consegui me manter tranquila, aproveitar a aula e dançar. E que se danem os números, as notas e as classificações.
Ontem fui escolhida para dançar no trabalho da Deborah Jowitt, começei os ensaios, cheguei tarde em casa, cansaço. On the edge. Segunda das 8am às 9pm..
Hoje rebolei na aula de improvisação, levei um elogio da professora considerada lenda e terrível (mas que eu acho maravilhosa). "- You know... this girl come from Brazil, and she can use her hips and she feel very secure about it. Culture makes some difference..."
Estou com um machucado no joelho que fica sangrando o dia inteiro. Descobri novas partes do corpo que podem doer.
Vi vários beagles (e micro beagles) e lembrei da minha gorda fedegosa, deu um aperto no coração. Sim eu quero sentir o fedor da minha Hopi e atormentar a autista da Suzi.
Não entendi lhufas do que a professora de pilates queria. Tive que dublar a aula inteira.
Recebi e-mail do noivo gordinho e senti um quentinho no coração.
Vi uma foto minha e do meu irmão no aeroporto e chorei. Quero ter dinheiro para comprar jogos de wii para ele e mandar no Natal.
Toda vez que falta fé eu lembro do meu aluninho que me ensinou que cantar preenche o coração e alivia as dores.
Toda vez que eu sinto saudades de falar Português e to irritada com meu inglês uga buga eu canto elis. E é sempre o bêbado e a equilibrista... Quando caia a tarde e um bêbado trajando luto me lembrou carlitos.
Começando a criar e coreografar. Dividida entre Debussy, Piazolla e mais alguns. Consegui três bailarinos realmente maravilhosos, grande responsabilidade. Inspiradíssima e empolgada. Idéias e mais idéias. Quem lembra do desiderata? Nada se cria tudo de transforma. Aprimorar minha linguagem. Desejo. Personalidade.
Tem feito frio sobrevivível.
Leia nas estrelinhas...
Saturday, September 11, 2010
Carrascos de nós mesmos.
Principalmente porque quando o alvo da crítica é o produto do seu próprio corpo e da sua expressão, a crítica negativa atinge inevitavelmente o pessoal. Mas eu sei o quantos as críticas são necessárias ao nosso crescimento pessoal e profissional. E é por isso que estou aqui. É por isso que tanto lutei por esta oportunidade de estar entre tantos profissionais de qualidade.
Quem me conhece de longa data sabe do meu problema de auto estima. Nunca me sinto boa o suficiente. Nunca fui uma grande performer. Tenho dificuldades técnicas enormes. Não sou boa em giros e as vezes perco meu equilíbrio por não estar suficientemente com o apoio dos pés no chão... Não estou falando que eu sou ruim, mas sim que eu conheço muito bem minhas limitações como bailarina. Mas isso não me impede de ser criativa, de buscar meu aprimoramento e de sempre lutar por mais.
Ao chegar aqui com tantas expectativas das pessoas que me conhecem deu ser um sucesso e ao ler os comentários carinhosos das pessoas queridas que torcem tanto por mim desabei de chorar... E vou contar o porquê:
Em duas semanas de aula na Tisch já tive que me por a prova, competir e fazer tudo aquilo que sempre morri de medo. Tem sido muito produtivo, porque percebo que as vezes não é nosso corpo que tem limites, mas sim a nossa mente que impões frustrações e limitações. Estou tendo aula de teatro (sim, decoro lines in English) que é algo que sempre fugi de fazer. E tive que participar de duas audições, dentro do curso, com todos os alunos do 1o e 2o ano de graduação, somados às minhas colegas de 1o ano de mestrado!
Na sexta-feira passada tive audição classificatória dos níveis técnicos. Eu estava muito nervosa, mas fiz o melhor que pude. (Antes disso só fiz duas audições na minha vida: uma para entrar na Unicamp e outra para a SP Cia de Dança). No mesmo dia sairam os resultados... Preciso falar que fui mal colocada, tanto no balé quanto no contemporâneo? É óbvio que me senti um lixo. Minha razão me dizia constantemente que isso não era um grande problema, porque eles precisavam dividir a gente em três turmas de níveis técnicos de qualquer forma. Mas a minha emoção era a do orgulho ferido. Sai do Brasil para me dizerem que eu sou péssima ( e ninguém disse isso, mas foi o meu pensamento)? Em nenhum momento pensei em desistir, mas a tristeza de ser considerada fraca foi muito grande.
Enfim, essa semana fiz as aulas junto com as pessoas também consideradas nível 3. E quer saber? Tem gente muito boa. E tem gente com dificuldades. A aula de balé tem sido frustrante, porque sei que sou capaz de lidar com mais. Mas se assim fui classificada, procuro ter paciência e disciplina para modificar o que as pessoas pensam do meu "produto corporal". E como meu pai e tantas outras pessoas não cansam de me lembrar: cada pessoa foi aceita aqui por ter algo diferente que chamou a atenção. Cada pessoa é única, não sou mais do que ninguém, mas também não sou menos. Sou só eu, Carol, com tudo que vem no pacote (bom ou ruim).
Já a aula de Contemporâneo tem sido um alívio. A professora Pamela Pietro tem um estilo que é muito mais familiar, lembra a professora Holly da Unicamp, só que é um tanto mais surtada e rápida. Quero muito ser escolhida para dançar no trabalho dela... e com isso retorno para a audição número 2, que foi ontem.
A faculty auditions da NYU foi a audição para trabalhos coreográficos de 5 professores da Tisch. Deborah Jowitt, com um estilo mais moderno; Pamela Pietro que já comentei; Kay Cummings a professora engraçadíssima e maravilhosa de teatro; Jim Sutton, meu advisor, professor de balé que não sei o que esperar; e Cherylyn Lavagnino a diretora do departamento que coreografa uma peça nas pontas.
Esta audição foi desgastante porque tivemos que fazer tudo na frente de todos, 8 pessoas por vez mostrando a sequência para os 5 professores e para os outros 70 alunos presentes na sala. E, em determinado ponto, tivemos que dançar uma sequência que foi passada, duas pessoas por vez, e estas pessoas tinham que simultaneamente à sequência dançada manter uma diálogo (-Yes, you will! -No, I won´t!). Ou seja, dançei praticamente sozinha e falei ( em inglês) na frente de muita gente... Foi tenso, mas esta parte da audição rendeu momentos hilários.
Agora a frustração: para participar da audição da Cherylyn era necessário fazer uma audição nas pontas. Levei minha ponta para o departamento, mas não me inscrevi na audição, porque não tive coragem de fazê-la. E aí vemos como eu mesma sou responsável pelos limites que me coloco. Tive medo de ser humilhada, de me sentir um lixo de novo e por isso não quis correr o risco. E isso foi ridículo. Assisti a audição das meninas. A sequência da professora foi algo que não me atraiu, por ser muito quadrado para o meu gosto, mas eu deveria ter tido a coragem de fazer.
Me senti intimidada por ter sido selecionada para uma turma "fraca" (mentira porque a turma não é fraca) de balé, e por saber que tinha gente muito melhor do que eu fazendo esta audição. Tenho uma colega de mestrado formada pela Julliard. Tenho várias colegas que dançaram em companhias de balé profissionais, para não mencionar as menininhas novinhas fisicudas que foram aceitas na graduação. Além da garota que foi selecionada para o So You Think You Can Dance e largou o reality show para fazer o BFA na NYU.... E todas estas estavam lá "competindo".
A vida de bailarino é dura. Assisti a audição e tenho certeza que eu teria ficado nervisissíma e me perdido um monte. Mas tinha muita gente mais fraca do que eu lá, se pondo a prova, e é isso que importa. Quando cheguei em casa, liguei meu pc e vi os comentários me motivando a sempre buscar mais e me senti um fracasso por não ter tido mais coragem. Que fique a experiência para que eu tome atitudes mais corajosas da próxima vez.
E termino com algo que anotei numa das aulas da semana - a de teatro - que é um grande desafio pessoal:
"You are enough if you use all of you!"
Kay Cummings
Sunday, August 29, 2010
Só sobre a solidão...
(Hoje estou fragmentada, então meus pensamentos vão assim mesmo.)
É tanto tempo andando por aí sem ninguém com quem dividir meus pensamentos.
Parece que eu vou explodir se eu não escrever. (Sabe aquela sensação da penseira?)
Enfim... acho que a solidão nos dá tempo para pensar e filosofar sobre tudo.
O que exatamente significa a solidão?
Ela é no mínimo engraçada.
Eu tenho estado sozinha e me perdendo na multidão.
De vez em quando rio, as vezes choro. Mas na maior parte do tempo só fico observando e pensando sobre tudo.. e sobre nada.
Adoro oposições, para mim elas movem e estabilizam o mundo.
Onde eu estava com a cabeça? Eu sou tímida e medrosa!
Mas sou proporcionalmente teimosa, portanto só volto daqui com (pelo menos) um diploma.
Friozinho na barriga.
Fim da marmata e da semaninha de reflexão, férias e solidão. Amanhã começam as aulas num lugar completamente novo.
Tuesday, August 24, 2010
from NY
Começei este blog há alguns meses para arrumar uma maneira de dividir esta minha experiência com tanta gente que espera notícias.
A última semana, anterior a minha mudança, foi marcada por muitas despedidas e muita gente me ajudando. Nunca esperei ter recebido tanto carinho! Só tenho agradecer pela oportunidade que me foi dada e principalmente por cada pessoa que me trouxe até aqui.
Recebi visita das minhas amigas mais queridas da facul; recebi muitas cartas de alunas quando menos esperava; ganhei uma festinha surpresa; com dificuldade disse tchau para minhas alunas queridas da JO e recebi a dedicação das melhores tias do mundo que procuraram garantir que eu conseguisse chegar aqui...
E fui me despedindo aos poucos de cada um. O mais difícil sem dúvida foram aqueles realmente próximos no qual sou mais ligada...meu noivo (que invadiu meu blog abaixo), minha mãe, pai, irmã, irmão e melhor amiga.
Quando entrei no portão de embarque deixando meus entes mais queridos para trás me senti trazendo um exército de gente morando dentro do meu peito, como se cada pessoa que torceu por este meu sonho estivesse indo junto comigo. Nunca me senti tão feliz e amada...
Foi engraçado como todo o meu percurso até NY foi marcado por pessoas bacanas. Parece que neste processo eu deixei de ter só uma mãe, mas passei a ter umas 10!!!
Logo na espera do portão de embarque encontrei um casal de americanos que começou a bater papo comigo e em seguida eu já estava escutando: NY is a big town, be always aware, you can get lost if you party too much (I´m not a party girl..) and stuff like that.
E meu "amigo" judeu (de chapelão e barba) que estava sentado ao meu lado foi mais uma boa alma cruzando meu caminho...
Ao chegar em NY a alfândega foi tranquila, fora o fato de termos que assistir o vídeo institucional "welcome to America" umas duzentas vezes durante o período de espera na fila. O oficial da imigração ainda puxou papo e me perguntou se eu ia ficar famosa (pq as pessoas sempre acham que quem faz arte em NY necessariamente vai ficar famoso?). E um outro guarda (o das malas) me perguntou onde eu ia: ao mencionar dance, tisch school of arts e NYU na mesma frase o guarda disse que ia me dar um presente... pediu um papel e anotou um código de desconto para convidados para o musical Fela! Me senti com uma estrela na testa...
Com muito custo levei as malas pesadíssimas até um taxi. E olha o nome do meu amigo taxista : Islam Mohamed... isso é NY, sem mais comentários. Fui perguntando tudo para ele feito uma matraca e ganhei de quebra um tour dos bairros/ regiões do trajeto JFK ao Lower East Side.
E neste momento veio a parte mais complicada de toda a viagem: subir 5 andares com uma mala enorme de 30kg, outra menor de uns 6kgs, mais duas outras malas de mão pesadas. Fiz duas viagens: na primeira levei as menores e na segunda retornei para só subir com a grandona.
Fui puxando degrau por degrau e no caminho um moço saiu de algum ap e passou por mim com as sobrancelhas levantadas, um ar de riso e disse: Well... have fun!
Pois é Carol: Welcome to NY!!! Meus dois braços estão arrebentados até agora! ( mas tudo vale a pena - qual seria a graça se eu não tivesse uma história para contar?)
Enfim... desde então tenho corrido atrás de me ambientar e organizar tudo que preciso na NYU. E além disso continuo numa busca desesperada por um local para morar...
É isso...
Agora vou escrevendo minhas impressões aos poucos... Tenho tanta coisa ainda por escrever.
É um mundo novo, pessoas malucas por todo lado e culturas diferentes transbordando pela cidade.
Estou amando cada detalhe daqui e tenho a certeza que esta é a minha cidade favorita desde já!!
Finito então...
Monday, August 23, 2010
INVASÃO
Tuesday, August 17, 2010
Sem mala.
Ainda não fiz muito progresso.
Mudar significa escolher o que vai e o que fica.
O que é importante e o que é supérfluo.
Significa desapego e coragem.
...
Ainda não fiz a mala, mas faltam só cinco dias.
O que levar?
Se fosse uma mala mágica eu faria o seguinte:
-levaria um teletransporte para eu poder toda noite dar um beijo no meu noivo e na minha cachorra.
-levaria miniatura das pessoas queridas em potinhos de azeitona
-levaria uma máquina de fazer comida vegetariana e outra de fazer comida japonesa.
-levaria minha Gaynor que viria com balance e giros inclusos.
-levaria meu sapato de sapateado normal mesmo
-levaria todas as minhas blusas na cor branca e teria um cachecol e uma polaina diferente para cada dia do ano.
-levaria todas as roupas auto-limpantes.
Tuesday, August 10, 2010
Sunday, July 25, 2010
Por enquanto eu sou fraca.
Deveria ser corajosa.
Deveria ser ponderada.
Deveria amar sem esperar nada em troca.
Mas tento. Às vezes.
Deveria criar mais, dançar mais, arriscar mais.
Deve ser por isso que estou indo embora.
Agora vai ter que ser na marra.
Ou dança ou danço.
E depois de tudo,
espero que eu fique um pouquinho
(que seja)
mais forte.

