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Wednesday, June 18, 2014

A vida dói.

Trabalhando muito duro esqueci da felicidade que é fazer o que eu amo. Parei de escrever sobre tudo e sobre nada. 4 anos de NY e a cidade bateu bastante em mim. Estou exausta, frustrada, e violentada por essa vida. Acabou a lua de mel.

Meu hiato em escrever é prova que parei de olhar ao meu redor, parei de querer ser criativa, parei de ter prazer em pensar e ser artista. Mergulhei na prática dura do dia a dia. Nas mil tarefas de ser coreógrafa aqui em NY. Em ter 5 empregos, 4 não pagos, e 1 money maker degradante.

Me sinto humilhada por estar comendo o pão que o diabo amassou. Uma coisa é vir atrás do sonho, cheia de orgulho e esperança. Outra é enfrentar as dificuldades diárias, profissionais e financeiras.

Mas não estou mal. Estou no melhor ponto que já estive como coreógrafa. Estou cada vez mais me aprofundando na minha pesquisa criativa e tenho consolidado minha companhia com um trabalho regular com minhas bailarinas e colaboradoras. Só é muito difícil. Fazer dança contemporânea numa cidade onde tem tanto artista de qualidade gera muita pressão. Mas mais do que isso, para coreografar e manter trabalhos artísticos aqui dependo de estar constantemente fazendo contatos, criando relacionamento com doadores e público americano.  E fica difícil, quando minha vida inteira foi no Brasil. E só agora as pessoas estão ouvindo meu nome. Em suma, é um trabalho de criar reconhecimento e criar contatos. E vamos falar a verdade? Não sou lá uma pessoa extrovertida e social. Não sou mais anti-social, como era há alguns anos atrás. USA me fez aprender a me apresentar para gente que não conheço, começar conversas na minha área e demais demandas dessa sociedade esquisita. Mas mesmo assim, sempre tem uma mini-barreira da língua. Nunca vai ser a mesma coisa que  conversar o bom e velho Português.

Tenho agora mais do que nunca buscado achar o meu eu de anos atrás. Meu eu estudante era muito mais positivo do que meu eu da vida real. Essa busca me faz olhar para dentro e ver o que está faltando. A disciplina de dançar quando não se tem mais uma escola. De me manter fisicamente ativa da maneira que amo, sendo que é tão difícil encontrar aulas que me satisfaçam. Dói olhar para dentro e ver minhas falhas. Dói escrever sobre elas. Mas escrever sempre foi meu desabafo e válvula de escape, então acredito que quando crio coragem de fazer o que estou fazendo agora, estou andando para frente.

A vida dói porque a gente fica preocupada com o que falta, com o sucesso que a gente ainda não alcançou, com tudo que a gente quer fazer e ainda não conseguiu. A vida dói porque colocamos muito peso no futuro, e esquecemos do agora. E o agora já passou. Mas sentir dor é algo bom. Me faz humana, me faz prestar atenção e acordar. Acordar para o agora, acordar para a hora da mudança. E acordar para a felicidade e sorte que já tenho: minha maior felicidade são as pessoas na minha vida. As pessoas que estão pertinho e as que estão longe. Meus amigos aqui. Minha melhor amiga que vai casar. Minha família no Brasil. Meu marido para quem volto correndo para casa todos os dias. Me sinto muito abençoada no âmbito familiar e pessoal. Quantas pessoas podem dizer que estão mais da metade da sua vida com o mesmo companheiro, e que o relacionamento só melhora com os anos?

Enfim, a vida dói. Mas tem que doer mesmo... para a gente crescer.
E no final das contas tudo vai passar: corpo vai morrer,  carreiras acabam e recomeçam, dinheiro vem e vai embora, coisas materiais apodrecem. Mas as experiências com as pessoas que convivemos é eterna. E está aí a vida verdadeira.



Foto tirada pelo Nicolas comigo voando e Allie Tsubota numa dança instalação que fizemos em Abril.




Thursday, July 5, 2012

Update - retorno à vida.

Faz três meses que não escrevo aqui.
Eu me formei.
Minhas duas amadas avós faleceram num espaço de duas semanas. Bem enquanto eu coreografava minha última apresentação na NYU. E recebia meu diploma no estádio do Yankees.
Um buraco em mim, exatamente no meu momento de maior realização profissional.
Minha mãe esteve aqui e foi a melhor coisa do mundo.
A saudade da minha família bateu mais forte do que nunca.
Estou há 10 meses direto sem colocar o pé no Brasil.
Tudo bagunçou na minha cabeça.
Meu coração vai ser sempre brasileiro, mas minha estrutura profissional é americana.
Ficar ou voltar?
Estou aguardando a regularização das minhas papeladas, mas a princípio, ficar por mais um ano...

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Meu estágio no Brazilian Endowment for the Arts está ótimo. As vezes me sinto no filme "O Diabo veste Prada", tenho que correr atrás de tarefas impossíveis que não tem nada a ver com o que eu faço. Mas ao mesmo tempo, estou tendo a oportunidade de conhecer um grupo de profissionais, artistas e de contatos impressionante. Ligar e conversar com um ministro foi um dos pontos altos até agora.

Consegui um work exchange na Triskilion Arts. Glamour zero: limpo um teatro/sala de dança e em troca ganho duas horas de espaço free para ensaiar com a minha companhia. Mas está valendo... vocês tem alguma idéia do quanto custa o aluguel de uma sala por aqui? Sai por no mínimo U$15 a hora... E como eu não tenho salário que pague sequer meu aluguel, eu não teria como viabilizar ensaio para minha companhia se eu não arrumasse um deal deste tipo.

Passei no Festival Internacional de Videodança da Amazônia e no Dança em Foco com o meu trabalho Ruína. Com a coreografia Piece #4 entrei num festival super bacana chamado The Current Sessions (no dia 15 de Julho) e num festival no teatro Dixon Place, em Agosto.

Consegui criar meu website em inglês.... e fiz tudo sozinha!

www.carolmendes.org

Também passei em uma audição e entrei numa companhia nova por aqui: Silva Dance Company. Sim, de um coreógrafo brasileiro! A companhia tem uma linha mais comercial, que mistura contemporâneo e capoeira. É extremamente físico e tá valendo muito a pena para mim neste momento.

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Muitas coisas aconteceram. Pensei em retornar ao blog várias vezes, mas nunca consegui.

Acho que escrever no blog está ligado à minha produtividade interna. Por mais que pareça que eu tenha feito um monte de coisa desde que me formei, nestes últimos meses tenho me sentido numa eterna ressaca da NYU. Estive absolutamente improdutiva.

Espero que meu retorno ao blog esteja marcando minha volta à produtividade.

Meus sonhos são tantos. Tenho tanta coisa pela frente, mas a vida é tão difícil.
Principalmente por ter que trabalhar numa área completamente negligenciada por todos, lutando a cada dia para sobreviver e viver de dança.

Que o cara lá de cima me ajude, apesar de eu estar meio desmerecedora de ajuda.

A disciplina de trabalhar sozinha (escrevendo projetos em Português e em Inglês, fazendo audições, me mantendo em forma) é muito dura.

Mas vamos que vamos.

E obrigada à Paulinha, que me mandou um e-mail lindo que me inspirou a voltar a escrever.

E bora trabalhar....

Monday, April 16, 2012

Piece #4

Devagar e sempre retorno ao blog.
Faltam 5 semanas para eu me formar no mestrado.
( E pensar que comecei este blog antes de vir para cá, buscando um meio de me comunicar com minha família e amigos no Brasil...)
Parce que foi há mil anos atrás.
Mas também parece que foi ontem.

Portanto é mais do que justificável minha ausência por aqui.
No último mês apresentei meu trabalho Piece #4 e dancei para outras coreógrafas em diferentes espaços e festivais.
Também houve o Major Dance Concert, onde dancei mais uma vez a coreografia Rookery criada pela coreógrafa Aszure Barton. Foi intenso, cansativo, mas também gratificante.
Terminei o primeiro corte do meu subway project e estou a todo vapor criando meu último trabalho a ser apresentado na NYU (agora em Maio, 2012).

Estou com a corda no pescoço; a correria está gigante.
Comecei um estágio no Brazilian Endowment for the Arts e tenho corrido atrás da minha permanência por aqui.
Há ainda alguns trabalhos finais a serem entregues. Workshops e masterclasses que finalizam o curso.
Estou me inscrevendo em tudo quanto é que é coisa que consigo. E estou trabalhando sozinha, me virando para montar meu website-portifolio em Inglês (www.carolmendes.org)

É isso.

Mais dança na veia do que nunca!

E olha aí minha coreo (com minha edição!):

Piece #4 from Carol Mendes on Vimeo.

Sunday, April 15, 2012

Tempo - Jiri Kylian

Tempo que não há.
Minha noção de tempo se esvai.
O que antes parecia lento se torna natural.
Em cada detalhe cabem mil palavras de expressividade

Sentimentos traduzidos em gestos
Pura dramaturgia
Pesquisa dos significados

Jiri Kilian e Michael Schumacher criaram uma obra prima
Um dos trabalhos mais complexos que já assisti
Cada personagem é absolutamente único

Por mais que eu estivesse atenta
Eu perdia informações
Por mais que fosse tudo uma dança em slow motion
Eu não conseguia ver tudo

A senhora bêbada
O homem apaixonado
Um outro homem sem escrúpulos
Uma cena de estupro
Mas por pior que isso soe:
tudo era belo
e triste.


A vela no escuro.
As imagens refletidas nos espelhos.
Uma grande sucessão de imagens poéticas.
Metáforas únicas para mim,
e provavelmente únicas também para cada indivíduo na plateia

Histórias sendo criadas em minha mente
O tempo se alongou
E mesmo após o fim do espetáculo
“Last Touch First” continuou se estendendo e se recriando na minha mente

Fui em busca de histórias de Chekov
De fato, os personagens são complexos
Um reflexo cru e cruel da humanidade

O medo da morte
Frivolidades
Mentiras, decepções.
E a esperança de alguns.


"The departed sleep; the dear ones sleep!" the stranger mutters, sighing loudly. "They all sleep alike, rich and poor, wise and foolish, good and wicked. They are of the same value now. And they will sleep till the last trump. The Kingdom of Heaven and peace eternal be theirs." (“A bad Business”, by Anton Chekov.)


E então não me importo mais com o que tudo isso quer dizer
A memória grava um tempo novo
E isso se perde numa imensidão de pensamentos

A dança fica jogada em algum lugar do pensamento
Fluindo sem sentido
E paradoxalmente, com a maior coerência possível.

O espetáculo se tornou uma lembrança
Um turbilhão de sentimentos jogado no buraco negro da memória.
Tempo que se perde
Que para
Que dura para sempre.



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Assisti "Last touch First" no The Joyce em 10 Abril 2012.

Tuesday, February 14, 2012

Dias impossiveis...




Dias impossiveis acontecem de vez em quando. Ontem foi um dia impossivel. E eu sobrevivi.

Acordei quase atrasada e corri para a primeira aula da semana. Tive aula de escrita com um professor convidado. O cara é artista plástico e escritor. Ele mistura palavras e conteúdos visuais, de forma bem interessante. Fiquei inspirada para escrever de forma mais maluca.

No meu curto horario de almoço - 30 minutos- comprei comida, imprimi um documento, assinei o documento, e engoli meu mac and cheese em 40 segundos.

Fiz a aula de ballet com o mac and cheese na boca do estomago e com a lingua queimada. Mas pelo menos o lado bom de estar tão cansada fisica e mentalmente é que tudo funciona: todos os giros, balances e intenções.

Depois da aula tive 15 minutos de intervalo e corri para resolver a inscrição num festival de videodanca. Passei os documentos para o Nicolas scannear e voltei correndo para minha project class.

Nesta aula todos os coreógrafos da companhia mostram suas coreografias e recebem feedback de uma banca de professores e alunos. Dancei primeiro na coreografia da Suzanne, que é sobre processo em Dança, e em seguida na da Erin, que é sobre o 11 de Setembro. Estou amando fazer parte destas duas coreografias.

Quando mostrei a minha coreografia e ouvi o feedback dos professores e alunos fiquei muito surpresa e satisfeita. Foram só coisas positivas sobre meu trabalho. Desde alguns comentários do tipo "é bem Carol", até palavras como imprevisível e divertido. Um dos meus professores falou que minha coreografia é como se eles entrassem em um filme "mudo" onde todo mundo se expressasse numa língua diferente.

(Na minha cabeça o mundo é meio exagerado e as pessoas deveriam andar de ponta cabeça, ter acessos de choro, comer chocolate, ficar rindo à toa...)

Em seguida a isto, tive meu ensaio. Apesar da semana passada que estive me sentindo travada quanto ao que coreografar, este fim de semana foi bem produtivo e consegui descansar a mente, tomando decisões sobre coreografias, vida e dança.

Para alguns pode parecer muito fofo/bonitinho o fato de eu estar morando em NY e tentando ganhar a vida como bailarina e coreógrafa. Mas na realidade é muito difícil. Eu mesma estou o tempo todo me questionando. Por que que eu faço isto? Dança é importante? O que eu quero dizer com minhas coreografias-trabalhos? Em um mundo tão amplo, o que eu estou fazendo para colaborar-questionar-mudar a situção em que vivemos?





Enfim. Meu ensaio foi mega produtivo. Sempre tento deixar meus bailarinos a vontade. E nesta coreografia ainda por cima, elas tem que comer chocolate no palco, então no ensaio eu levo kisses da Hershey's para elas irem treinando. Vocês podem imaginar o quanto elas gostam.

Em seguida tive mais 10 minutos de intervalo, tempo que usei para falar com o Nicolas, que conseguiu escannear os documentos que precisávamos. Corri para o 6o andar (pelas escadas... é óbvio) e mandei um e-mail inscrevendo o videodança Ruína (feito em parceria com a produtora Mariachis Audiovisual).

Voltei correndo 4 andares de escada, engoli um Yogurte e tive mais 1 hora e meia de ensaio da Suzanne. Ao fim deste ensaio, não tive tempo de beber e comer nada e a Erin já começou o ensaio. Normalmente seriam mais 1 hora e meia de ensaio, mas ela propôs que nós ficássemos até 10:30pm (ao invés de 9:45pm), como costuma ser, para termos o dia seguinte off. Todos topamos é claro.

Foram 13 horas de aula-trabalho-ensaios direto, com apenas 50 minutos de intervalo (que na realidade usei para resolver coisas). Ou seja, foi um dia impossível. Mas que cumpri tudo que precisei.

E para coroar a Segunda-feira eu tive a infeliz idéia de voltar para casa de ônibus, ao invés de metrô. O maridão abençoado veio me buscar e me acompanhar até em casa. Entramos no ônibus e por alguma triste razão a ($%$*%$%$) motorista foi dirigindo a 15kms/h.

Cheguei em casa as 11:40 da noite. Fui tomar banho, finalmente comi algo, assisti um filme até as 2 da manhã e fui dormir.

Yeah. This is NY.


Sunday, February 5, 2012

Cookie monster, processo criativo e interativa fantasma.

Só para divertir:




Meu nome devia ser cookie monster.
Tenho escravizado meu marido para ele fazer cookies para mim com mais frequência do que minha vida de bailarina permite.
Preciso de doces para manter meu bom humor.
E tenho pensado tanto em humor ultimamente...

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Estou coreografando um trabalho para a companhia da Tisch que será apresentado em Março. E antes de decidir o que fazer eu vivi a maior crise. Não sabia o que fazer. Eu deveria escolher um tema, pesquisar e coreografar? Devia entrar no estúdio, improvisar, filmar e partir dali?

Não conseguia escolher meu assunto. O que eu teria em mente para criar?
Então um belo dia, estava no chuveiro e eureka!...
Porque não trabalhar exatamente em cima disso? Porque não brincar com minhas dúvidas e começar a criar partindo de quão bipolar eu sou?



A inspiração poderia vir de qualquer coisa, mas o meu foco seria exatamente a mudança de uma idéia para outra, focando no humor feminino (afinal tenho 5 bailarinas). Desde então tenho trabalhado na minha coreografia brincando com mudança de situações e gestos.

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HELP


Hoje precisei fazer um exercício de escrita (em inglês) para uma aula que tenho amanhã. Estou tendo que descrever de forma artística e livre uma coreografia qualquer.
Óbvio que escolhi este meu trabalho, porque além de cumprir o que preciso, eu ainda consigo um pouco mais de inspiração e lucidez para continuar criando.

Tenho gostado de muitas coisas que fiz, mas ando me sentindo travada, preciso de mais idéias, de coisas aleatórias da vida... Coisas de mulher.



Por isso vou dividir com vocês algo que usei como inspiração e vou pedir para que vocês me dêem suas versões.

Pedi para todas as minhas bailarinas me escreverem uma frase, uma pequena história, ou qualquer coisa que viesse à mente delas, que fosse relacionado com mudança de humor.

E peço o mesmo para minhas caras fantasminhas. Por favor me ajudem com uma mão-inspiração. Escrevam nos comentários de forma anônima mesmo.

E segue o meu exemplo para vocês:

Toda vez que eu vejo um Beagle eu choro. Balões de hélio fazem o meu dia. Quando meu marido deixa as roupas nos lugares errado eu fico uma fera. Cookies e chocolate deixam tudo mais alegre. Choro quando estou muito feliz, ou muito triste. E também quando estou muito mais ou menos. Adoro coisas de bolinha. Morder, apertar cravinhos ou torrar a paciência do meu gordinho é algo que sempre me anima. Quando eu preciso escrever algo que eu não gosto (como este trabalho em inglês) eu fico bebendo água o tempo todo, tendo surtos de choro e de riso e grito sozinha em casa comigo mesma.

Aguardo cometários insanos.

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Post Scriptum:

Sabe aquele ditado americano "an apple a day keeps the doctor away"?
(Uma maçã por dia, e fique longe do médico... só que rimando).
Acho que acabei de fazer minha própria versão do ditado:
A post a day, keep the psychiatrist away.

=D

Saturday, February 4, 2012

Back to business!!!

Ok.
Já faz um mês que eu parei de escrever.
Quase subi pelas paredes.
Bati a cabeça no teto...
E cheguei a conclusão que não tem jeito:
Não consigo deixar de escrever deste jeito informal.

Por mais que eu ame escrever críticas, ou que eu tenha meu portfolio artístico todo organizado; eu continuo sendo esta mistureba de assuntos e idéias. Portanto aqui estou, de volta. Porque nunca saí. E o blog vai permanecer esta bagunça de idéias. Voi là.

Todos os dias transbordavam idéias para posts engraçados; relatos das minhas tragédias; ou notícias do mundo da dança. A vida ia andando e eu queria registrar de alguma forma. Não sei nem se isso aqui é para vocês ou se é para mim. Só sei que eu tenho memória de ameba, então não tem nada melhor do que escrever para não deixar a vida passar em vão.

Então olhando para trás, neste mês que se passou, aconteceram alguns pontos principais:

-Escrevi meu primeiro projeto em inglês e estou aguardando a seleção para saber se serei aceita em uma residência artística.
-Fiz um intensivo de inverno com a companhia do Doug Varone. Foi difícil para caramba mas eu amei. Me senti inspirada para seguir em frente dançando e coreografando.
-Estou trabalhando na edição do Subway project (meu terceiro videodança, mas 1o que além de coreografar eu fiz a direção - junto com o maridão - e irei editar). Não tenho a mínima idéia de onde isso vai dar. Entrei em contato com um compositor que irá fazer música original para este projeto.
- Tenho trabalhado na minha coreografia para a Second Avenue Dance Company, que vai estrear em Março. Além disso estou coreografando um outro trabalho para Maio e estou remontando uma coreografia antiga para mandar para festivais por aqui.
-As aulas na Tisch recomeçaram com todo seu grau de loucura. Tenho ensaio até as 1ohs da noite todos os dias da semana. Tive uma infecção nas bolhas do meu pé esquerdo e tive que ficar sem dançar por uns dias. Ainda estou me recuperando e os machucados nos pés demoram a sarar.
-Estou dançando em coreografias de duas colegas de mestrado e estou super animada com os trabalhos.
-Minha tia-fada-madrinha veio a trabalho para cá e passou alguns dias comigo e com o Nicolas. Comemos em um restaurante Tibetano (o que foi um máximo!!!) e antes dela voltar para o Brasil, ela nos deu de presente uma super compra de mercado. Estou mencionando isto porque tem tanto queijo na minha mini geladeira...mas tanto queijo... que não dá nem para imaginar minha felicidade. (Para quem não sabe: eu AMO queijo).
-Eu e o maridão estamos bem. Aprendendo a viver vida de casado. 95% do tempo nos amamos e nos outros 5% eu quero dar com o rolo de macarrão na cabeça dele, porque ele deixa sapato e roupas largadas pela casa.
-NY continua linda. Mas só nevou uma vez. O tempo está esquisito. Lembro que no ano passado fez muito mais frio do que está fazendo neste ano.
- Semana passada eu vi um cara que era o Obelix na sua forma humana-não-desenho. Sim, estou falando do Obelix (do Asterix), gaulês, gordão barrigudo, com uma barba/bigode gigante. Então... eu vi ele andando aqui na rua de casa.


E ontem eu e o Nicolas topamos com uma senhora de uns 60 beirando 70 anos... com cabelo azul.

É por isso que eu amo NY.

(É bom estar de volta... Senti falta de vocês, meus caros fantasminhas.)

Sunday, December 4, 2011

Dia- agora.

6hs da manhã acordo.
Como panquecas feitas pelo maridão.
Cheiro ruim de pão de queijo.
(Sim sou uma das únicas duas pessoas no mundo que odeia pão de queijo)
Estômago embrulhado, dor de cabeça, medo de algo dar errado na gravação.
Pegamos o metrô e vamos rumo à Brooklyn Bridge Station.
Chegamos cedo.
Esperamos um pouco.
Chegam todos.
Damos pão de queijo de presente aos bailarinos.
(Não posso pagar cachê como gostaria, mas tento fazer algo).
Começamos as filmagens.
Entramos na última parada do trem 6 e temos exatos 2 minutos para filmar até o trem dar a volta em direção uptown.
Saímos na mesma plataforma, sobe e desce escadas, e aguardamos o próximo 6 para mais uma tomada.
Por volta de 10 ciclos depois nós terminamos a filmagem do videodança.
Muito feliz.
Não dá nada errado.
Não tem nenhum oficial do metrô para encher as paciências e conseguimos gravar 6 ângulos diferentes de uma mesma coreografia.
Além de alguns inserts.
10 e meia da manhã.
Já estamos no trem e aproveitamos que tudo terminou cedo e voltamos para casa.
Acabada eu resolvo dormir só uma meia horinha, antes do horário da minha aula.
Óbvio que perco o horário e quase perco minha aula.
Da soneca entre 11:15 e 12:20 levanto assustada, finjo preguiça, mas crio coragem.
Saio correndo feito uma maluca correndo pela 2a avenida.
Faço o trajeto que normalmente dura 15 min, em 7 min.
Chego na estação, passa um metrô, ele voa, pego a conexão.
Corro de Astor Place até o prédio da Tisch.
Não deu para almoçar nada.
Estou na base de panqueca desde cedinho.
Entro na hora certa na aula de Arts Administration.
Aula sobre fundraising (ou seja: como conseguir doadores/patrocinadores para minha companhia).
A melhor aula que já tive na minha vida: útil e prática.
3hs da tarde a aula termina.
Azul de fome.
Encontro o Nicolas e gastamos um dinheirinho que não temos na Pommes Frittes.
Sim, almocei batata frita em enormes quantidades.
Prêmio zero: bailarina-coreógrafa sem noção de nutrição decente.
Enrolamos na Washinton Square.
Skatistas se acabando e caindo pelo parque.
Pianista tocando num canto, voz e violão em outro.
Gybney Dance Center.
Assistimos a mostra dos alunos do programa profissionalizante da Peridance, que minha querida amiga Nati (a ex-roomie) dança.
Faço um contato de trabalho interessante.
Não... não vou contar. É segredo.
Voltamos andando em direção a Washington Square.
Preciso fazer meu trabalho-crítica de espetáculo de música do século 20.
Eu e o Nicolas aguardamos sentadinhos num banco ao ar livre.
Até a hora certa... num frio congelante.
Assistimos um grupo de percussão de alunos de música da Steinhart, NYU, celebrando os 75 anos do Phillip Glass.
Amamos.
Lembra o UAKTI.
Termina o concerto.
Passamos no mercado (para variar).
Compro um secador de cabelo por 10 dólares (porque não dá para ficar doente neste frio).
Voltamos para casa.
Eu e o Nicolas brigamos pelo Laptop.
Ele ganha. Usa primeiro, eu depois.
Fazemos janta juntos.
Macarrão ao molho branco, cogumelo, gorgonzola.
Vinho que sobrou do Thanksgiving.
(Para comemorar o fim das gravações).
Barriguinha cheia.
...
Presente.
Agora.
Tomar banho.
Dormir.

E amanhã é mais um longo dia...

Começa a performance week e as deadlines de todos meus trabalhos.

E laia.




Saturday, December 3, 2011

Últimas filmagens.

Muito animada com o último dia de filmagens do Subway Project.
Hoje filmamos dentro do metrô em movimento.
Mil idéias, mas teremos que estar preparados para tudo.
E que seja o que Deus quiser.
Abaixo o bailarino Shane Larson dançando na plataforma de Astor Place.


Friday, November 18, 2011

Produtora Mariachis e IDILL 2011

Acabei de receber a primeira versão do vídeo-dança que gravei no Brasil. Foi logo antes de voltar para cá. E fiz em parceria com a produtora Mariachis Audiovisual.
Fiquei muito feliz e satisfeita com o trabalho e não vejo a hora de poder ter o trabalho final em mãos para mandar para festivais por aí.
Queria que tivesse dado tempo de ter enviado para o IDILL 2011. Posso sonhar alto e dizer que o vídeo está a altura deste festival? Isso graças a parceria com os talentosos meninos da produtora. O Otávio Paranhos (diretor), o Nicolas Pirata (direção de fotografia) e o Mauricio Rodrigues (montagem) arrasaram. Logo mais falarei mais sobre este meu video-dança...

Quanto ao IDILL..
É um festival internacional de curtas em dança que está acontecendo online agora!!!
O período de votação vai até o dia 20 de Novembro e são 24 curtas competindo. O prêmio é de 5000 euros (ohh sonho...)
Tem vídeos de diversos países, mas a maioria é da Europa. Tem apenas 1 do Brasil, mas que eu achei muito fraco e não vou postar aqui. ( Não vou mencionar minha revolta.)
Enfim...

Se você é alguem da dança POR FAVOR colabore conhecendo um pouco mais do universo da dança para a câmera e veja os vídeos, crie sua opinião e vote!!!

Agora se você não é da dança ( e mesmo assim tem paciência de ler meu blog) veja os vídeos que eu postar aqui. Se gostar de algum, vote.

Ou então simplesmente comece a formar uma opinião.

Dança, arte, música... são necessidades básicas dos seres humanos.
É expressão. Liberdade. Educação estética.

Vejam comigo o que está acontecendo na dança pelo mundo.
Isso é reflexo de quem somos...

E o primeiro vídeo selecionado para o IDILL que escolhi postar é este abaixo...
1. É curto
2. Vai direto ao ponto
3. Me manteve interessada o tempo todo
4. Expõe uma idéia
5. Gera sensações
6. É dança que só se faz possível na combinação com vídeo...

BODY TRAIL CCTV from La Gaîté Lyrique on Vimeo.

Sunday, November 13, 2011

Lá vem uma semana daquelas...

Ai meu Deus

Segunda nem começou e eu tenho a sensação de que eu não parei...

Quer dizer...eu não parei.

Da filmagem de hoje a tarde, aos orçamentos, até escrever projetos, trabalhos batendo na porta e não vai dar tempo!

É oficial essa é uma das semanas do ano q eu não consigo entender como vou sair viva no final...

Tenho que:

Enviar dois orçamentos para minha professora de arts administration.

Escrever uma carta de apresentação para um patrocinador/empregador em potencial.

(E isso é a lição de casa atrasada da semana passada que enviarei por e-mail)

Para essa semana tenho que escrever um exemplo de projeto que será corrigido e avaliado.

Além disso tenho que criar meu website em inglês, pagar pelo domínio do website.

E escrever um "Artist Statement" e um "Mission Statement" que são basicamente um resumo de quem sou eu, meus ideais artísticos, interesses e aptidões.

Mas como não sou boba, estou ralando e usando a lição de casa como impulso para escrever os projetos que estarei enviando para alguns locais assim que terminar meu mestrado.

Estou fazendo um projeto para uma residência artística em uma Universidade em Ohio.

E também estou trabalhando em um projeto dança - vídeo -instalação - performance a ser apresentado aqui em NY.

Tenho trabalhado por minha conta em aprimorar meu currículo e Resume.

E fora a lição de casa dessa aula de Arts Administration que está fazendo eu arrancar os meus cabelos (mas ao mesmo tempo está sendo a aula mais útil/ prática da vida real que já tive em toda minha vida escolar) tenho outras coisas colaborando para o caos da semana.

Na segunda que vem tenho que entregar um rascunho de um trabalho de 14 páginas para minha aula de música no século 20 (porque meus professores de música são sempre sem noção?).

E detalhe: eu sequer comecei.

E fora isso essa semana a Sra. Coreógrafa ultra power, com seu cachorro maluco que anda no meio dos ensaios, está de volta. Aposto que no momento que a Azsure Barton voltar a nos coreografar ela vai presumir que todo mundo lembra de todos os milhões de sequências de movimento. E depois ela vai mudar tudo, dar um nó no nosso (meu) cérebro, fazer a gente se jogar no chão de cabeça. Contar até 5, depois até 12, abre a boca, faz braço de patinho, conta até 27, faz um movimento numa contagem com as mãos, circula a cabeça em outro tempo, conta até dois, e as pernas é pé fazem outra coisa completamente esdrúxula, conta até dois mil, tudo ao mesmo tempo. e a música é psicodélica impossível de contar. Então todos os bailarinos aprendem a contar do jeito irregular estranho que ela pede.

Esse tem sido o processo com a Azsure. Muito educativo, inspirador, intenso, insano, físico e impossível. Mas eu estou dando conta até agora.

E (on top of all that) para coroar minha semana from hell:

Essa semana eu estou teching!!!! Ou seja, estarei no backstage de um dos concertos da Tisch trabalhando toda a semana das 7hs até as 11hs!!!

Se eu terminar essa semana viva eu aviso.

Wednesday, November 9, 2011

Subway Project -fotos

Tive a idéia inicial para este projeto no semestre passado. Com a minha vida solitária em NY eu vivia com meus olhos abertos para tudo. Mas o metrô era sempre uma rica fonte de novas informações. Quem acompanha meu blog sabe como eu sou obcecada com o metrô. Sempre comento sobre as pessoas diferentes que encontro, sobre as diferenças sociais escancaradas, sobre as maluquices...


Sky color - subway project

Acreditam que uma vez eu estava de frente a um banco onde sentavam 7 pessoas completamente diferentes, e cada uma estava numa posição corporal. Todas pareciam estar no seu próprio mundo. Mas de alguma forma estas pessoas compunham um lindo quadro. Foi uma epifania.

Para mim falava sobre a diversidade humana. Sobre a beleza dos sentimentos não ditos. Sobre o que une todas as pessoas. Como seres humanos nós sentimos dor, alegria,e frustrações por diversas razões. Mas apesar dos motivos serem diversos, todos nós sentimos algo similar, e isso nos une.
Eu sou apaixonada por essa brincadeira de mostrar a união no meio da diversidade. E foi isso que busquei fazer no meu Subway Project.


Look at me.


Em outro momento estava eu indo para uma parte desconhecida da cidade quando eu sai numa estação de metrô que eu não conhecia. Peguei uma escada rolante gigante para sair do fundo da terra e ir para a superfície. No longo trajeto da escada fiquei pensando sobre solidão. Sobre como uma escada é uma bela metafora. Ser levado a algo melhor, em direção a luz.

E por outra vez simplesmente olhei para as pessoas sentadas no banco a minha frente e tive a súbita visão delas com 8 anos de idade. E então olhei de novo para essas pessoas e vi elas num mundo surreal onde elas podiam estar sentadas de cabeça para baixo, onde elas não estavam juntas, mas podiam interagir...


Going surreal

Motion

E daí veio minha inspiração. Convidei sete bailarinos completamente diferentes e arquitetei um video-dança onde todos dançam separados e juntos. Estou gravando por toda a cidade os trechos em diferentes plataformas e estações. Mas o grande desafio vai ser gravar em um trem. Cruzem os dedos para que tudo dê certo e para que nenhum oficial do metrô mau humorado encrenque com a gente. Verifiquei as permissões e é permitido gravar no metrô quando se tem poucos equipamentos. Mas o problema é que precisamos gravar com o metrô parado e é lógico que isto é um desafio. A gravação está marcada para sábado e então tentaremos gravar na raça.



Olhar


Abaixo uma foto da locação na 59th St. Um cruzamento de escadas para diferentes linhas de metrô, que dá num grande espaço cercado por lindos murais. A linda e talentosa bailarina que dançou neste local é a Brittany Testone.


Hear me


Todas as fotos do post são do meu fotógrafo favorito, Nicolas Pirata.
(Também conhecido como meu marido!)

Thursday, October 27, 2011

Gallim Dance - Andrea Miller

Para a galera de dança contemporânea que visita meu blog em busca de informações sobre o que acontece por aqui:

NY é um mundo. Tem muitas companhias, todo mundo fazendo coisa diferente. Ao mesmo tempo que tem muita gente qualificada, me dá a impressão que tem espaço para todos.
Para a minha disciplina de Arts Administration estou fazendo um levantamento de 5 coreógrafos e/ou bailarinos que me inspiram. E devo pensar se eu tivesse oportunidade de encontrá-los, que perguntas eu faria em relação a trajetória deles.
A professora sugeriu alguns nomes, e para variar eu não conhecia ninguém. Então fui fazer a tarefa básica de dar um google um por um e começar a aumentar meu conhecimento de coreógrafos independentes e autônomos que sobrevivem com suas companhias aqui em NY.
E então achei essa menina.
Sim, tenho que chamá-la de menina, porque ela é muito novinha.
E ela está crescendo bastante por aqui.
Ela dançou alguns anos na Companhia Israelense Batcheva (que é idolatrada aqui em NY) e então voltou para cá e criou sua própria companhia.
Ela tem influências da técnica Gaga (criada pela companhia israelense que eu mencionei) mas teve formação do seu vocabulário na Julliard.
Vendo o vídeo eu fiquei impressionada como alguns trechos das coreografias dela se parecem com o vocabulário técnico daqui da NYU.
E não tem muito a ver com a cena de dança contemporânea no Brasil.
Tenho dançado bastante por aqui então me acostumei com essa "cara" nos trabalhos da NYU. Mas é legal me dar conta que agora faço parte de um vocabulário de dança que é super atual: um mix de alto treinamento em balé; de aulas de contemporâneo fundamentadas em diferentes Pais e Mães da dança moderna americana; e desta tendência atual de se mexer para todos os lados, essa busca pela liberdade de movimento completa.
Enfim.
Estou inspirada para dançar, coreografar e ajudar a fazer o mundo da dança sacudir um pouco mais.



Monday, October 17, 2011

Perspectiva Profissional

O fato de eu ter conseguido vir para cá e estar dando conta do programa de mestrado da NYU faz a minha vida ser mais aqui do que no Brasil. Óbvio que família, amigos, e todas minhas raízes permanecem. Mas recentemente venho me sentindo cada vez mais ligada profissionalmente a NY. Primeiro que todos meus contatos profissionais são daqui. Segundo que me sinto mais útil e com mais possibilidades por aqui, do que jamais me senti no Brasil.

E isso me deixa feliz e triste.

Andei com dificuldades de escrever sobre este meu segundo ano de mestrado porque tudo mudou. No ano passado tudo era novo, eu mergulhei de cabeça, eu tinha aulas 24 hs por dia, não dava para pensar muito no futuro. Tudo o que eu fazia era estudar, trabalhar, dançar, dançar mais, ensaiar, coreografar, improvisar e buscar me melhorar.

Mas nesse ano não. Começou tudo diferente e eu sofri um baque.

Óbvio que no começo eu estava encantada, o curso se predispõe a ser uma vivência prática de uma companhia de dança, permitindo aos alunos um contato com profissionais de alta qualidade e abrindo nossos caminhos para o futuro. Tudo era novo de novo. Fui abençoada de cair na coreografia da Azsure Barton e tive a oportunidade de ensaiar intensivamente durante as primeiras duas semanas de aulas para o trabalho que ela está coreografando. Mas quando os ensaios dela pausaram eu passei a ter várias janelas livres. E eu odeio tempo livre. Eu gosto é de rotina lotada de trabalho.

Mas ao mesmo tempo eu continuei envolvida com aulas acadêmicas de manhã: Colaboração entre músicos e dança; Música no século 20; Dança para a câmera (edição); Yoga avançada; e Pilates ou Balé (quando consigo me organizar para ir nas aulas opcionais).

Fora o Estudo Independente que estou fazendo. Esta disciplina é orientada por um professor do meu curso, mas quem faz a disciplina sou eu. Ou seja, como diz o nome, é um estudo independente que estou fazendo num tópico que me interesso. Então desde o ano passado já conversei com o meu orientador e me organizei para criar um video-dança original. Eu estou produzindo, dirigindo, coreografando e vou editar o vídeo (o Nicolas vai filmar, e um costume designer com quem já colaborei antes vai fazer o styling do figurino).
Meu vídeo é um projeto no metrô. Num outro post falarei mais sobre ele.

E além disso, meu departamento oferece uma série de workshops de graça, para os alunos do último ano, aos sábados. O primeiro que fiz foi relacionado a como escrever projetos e a conseguir patrocínio como coreógrafa em NY. Foi uma série de 4 sábados e as aulas abriram meus olhos para a minha perspectiva profissional. Foi ao mesmo tempo uma injeção de ânimo e um banho de realidade. Agora entendo muito melhor como funciona para sobreviver como artista por aqui.

E o workshop que comecei a fazer neste último sábado é sobre Arts Administration. As aulas vão abordar uma série de assuntos desde como fazer seu orçamento, até quanto a gente espera ganhar como bailarinos e/ou coreógrafos. Até milhões de outras coisas que espero poder compartilhar aqui de vez em quando. Óbvio que estes conhecimentos são úteis para mim aonde quer que eu esteja, mas é principalmente um conhecimento específico do mercado de dança contemporânea em NY.

Enfim... tenho pensado bastante em como sobreviver e viver por aqui.

E é difícil assumir que quero que minha casa seja aqui por mais tempo do que eu planejava. Mas não adianta adiantar o tempo. Encher a cabeça de confusão. Lembro que em todas as fases da minha vida eu passei por situações similares.

Cada mudança na vida parece uma coisa fora do mundo, impossível, quando estamos apenas sonhando e planejando. Mas depois que vira passado eu percebo como as mudanças são naturais. E as escolhas que pareciam tão difíceis, todas as confusões, se tornam insignificantes perto do caminho escolhido.

E assim espero que meu futuro continue a ser:
Não sabendo bem aonde vou chegar,
Com muitos sonhos
e paciência para continuar trabalhando
e esperar alcançar algo um dia.

=)

Saturday, October 1, 2011

Black and White

Tenho escrito pouco sobre minhas aulas, né?
É que anda tudo tão diferente do ano passado, meu horário é tão esquisito e eu ainda estou tentando me acostumar e a me organizar em relação a essa vida de dona-de-casa-bailarina-coreógrafa-estudante-esposa-artista e pessoa precisando sobreviver em NY.
Isso está sobrecarregando um pouco e eu estou escrevendo bem menos do que gostaria.
Enfim...
Tenho estudado um bocado sobre vídeodança e tenho aprendido a editar, coisa que descobri que amo fazer (apesar deu estar só engatinhando na arte de dominar o Final Cut Pro).
E então indicaram este vídeo que achei demais.
É longo viu...
Gostei muito do fato que a Dança foi criada para o palco, mas que houve uma preocupação cuidadosa em filmar a coreografia de forma a enfatizar os conceitos. Isso valorizando a estética proposta pelo coreógrafo.

... Ok... essa frase ficou meio cult chata crítica de dança...

O que quero dizer é que a edição do filme e a escolha das cenas é sintonizada com a iluminação e música. Colaborando assim, para uma total compreensão de uma Dança que deveria ser assistida no palco, mas que também se torna interessante em vídeo.



Friday, August 19, 2011

Armário de Narnia - como achar figurinos para dança.

Sempre fico em um impasse quando busco figurino para dança.
Não gosto de coisas com cara de figurino-fantasia de carnaval, muito menos aquelas coisas manjadas com cara de figurino de final de ano de academia de balé.
( A menos que eu esteja dançando balé, né?)
São essas coisas que só buscam criar um efeito e unidade.
Até na minha época de professora da cia de tap eu lutava para criar algo interessante.

Para começo de conversa, eu gosto de roupas para dançar que tem cara de dia-a-dia, mas ao mesmo tempo eu tenho pavor de figurinos com cara de aula de dança contemporânea.
Então vivo queimando os miolos para descobrir opções que me agradem.

O primeiro item que levo em consideração, obviamente, é a estética que estou buscando trazer na coreografia. É algo de época, futurista, brega, animalesco,ou psicótico? Quero simplicidade, realismo, ou surrealismo?

Para o caso em questão - a coreografia solo que eu montei para a conclusão de uma disciplina de composição, e que estou adaptando em um videodança - eu venho buscando algo meio antigo, que mostre as pernas, dê movimento, é seja meio deprimente.

Uma boa forma de buscar figurinos para solos é fuçar em brechós.
Recentemente dei uma olhada em alguns, mas nada me animava.

Então hoje tive uma idéia brilhante...
Enfrentar o armário do dragão - o armário de nárnia - o armário da minha mãe.
Acho que deve ter roupas de 1837 lá.

Eu sempre reclamo que ela não joga roupas fora, mas de agora em diante eu vou começar a dar mais valor ao brechó particular que tenho na casa da minha mãe.
Foi só começar a procurar que eu achei coisas interessantes.
Agora resta saber se o pessoal da produção do vídeo vai andar na mesma direção estética que estou indo...

E se minha mãe não vai me assassinar porque eu escrevi sobre o armário do dragão publicamente.
(Ou seja, se eu sumir, vocês já sabem o que aconteceu.)

....

Enfim, quantas coisas técnicas hoje, não?
Eu estou meio business.
Até que enfim.




Acima foto da minha coreo "Ques't que la fait rire?"
O figurino foi improvisado, tirando idéias das coisas que os próprios bailarinos tinham e gostavam, mas eu fui orientando o que eu queria e me adaptei em cima do que era possível. E foi um figurino com um dos resultados finais de que mais me orgulho.

Friday, July 1, 2011

Abstinência crônica

Hoje pulei da cama dando um salto contemporâneo, que terminou ligando num giro que começou em pé e terminou sentada no chão.
Estiquei minha perna direita ao lado e transferi o peso passando para uma posição no nível médio.
Fiz umas ondulações malucas com meus braços, uns gestuais, e continuei a moção indo rumo ao corredor.
Fui andando pelo corredor da minha casa, mudei o alinhamento do corpo, coloquei pausas, equilíbrios na meia ponta, e movimentos derretidos (que estão dentre os meus favoritos).
Voltei para a cama e fiquei num estado de abandono do corpo, e com um impulso apoiei meus braços e elevei meu corpo em posição de flexão. Fiz algumas flexões e alonguei as costas de diferentes formas.
Abandonei o meu corpo na cama novamente.
Acho que estou sofrendo abstinência crônica de dança.

Preciso de uma sala de aula livre só para mim urgente!

Saturday, May 21, 2011

Dance Parade - drops



Foto daqui.

Ontem fui fazer as últimas coisas que faltavam antes deu ir embora. Levei uma gaveta cheia de papelada e uma mochila, e larguei no meu armário da faculdade. Devolvi filmes na biblioteca. E fui mandar uma carta com meu imposto de renda americano (dizendo que eu sou pobre e não recebi nada deste governo... nem do lá do Brasil também, se eu for parar para pensar).

E fiz tudo isto nas redondezas da minha faculdade. Passando pela St Marks, Astor Place, etc.
Quando eu saí do metrô eu já achei esquisito. O meu caminho de guerra estava cheio de barras de contenção. Curiosa que sou fui perguntar para um officer parado por perto o que era aquilo. E então ele me explicou num tom de impaciente desaprovação: é a Dance Parade.

Hã? Que? Como?

Continuei meu caminho, fiz as coisas que precisava.
Óbvio que aproveitei a street fair que estava acontecendo ali na 3a avenida, nas redondezas de onde eu estava resolvendo minhas coisas.
Passeei calmamente, olhando as ruas, as pessoas, os prédios.
Almocei o melhor crepe que eu já achei aqui - cogumelo espinafre e queijo - 8 dólares. (Eu estou indo embora, posso comer direito, vai?)

Continuei andando com meu prato de crepe e passei na frente de uma muvuca se aglomerando. Era um dos pontos principais da parada. Um Dj começou a tocar. Sentei na sarjeta, no sol, com meu pratinho de comida e resolvi dar uma de americano desocupado. Fiquei lá esperando para ver o que ia acontecer.

Uma hora depois, a parada chegou onde eu estava. E a essas alturas eu já tinha recebido um panfletinho, já tinha entendido o que era, e estava sentado num spot vip. (Só depois que eu percebi que eu estava de frente para as câmeras e devo ter saído em várias fotos e filmagens. Aff)

Enfim. A parada era para comemorar mais de 70 tipos de dança de NY. Tinha no programa desde grupos étnicos até escolas de renome em dança contemporânea (como a DNA), escolas pops (como a Broadway Dance Center) e grupos de dança do ventre.
Fiquei da 1 às 3 assistindo o povo passar dançando (e passando vontade de pular num bloco qualquer e começar a dançar).

A surpresa para mim foi o tal do Caporales Boliviano. Várias escolas muito organizadas e lotadas de gente trouxeram variações dessa dança típica. Muitos homens dançando, e uma sincronia linda de se ver. As roupas eram muito ricas e beirando o carnavalesco. Os homens pareciam caubóis astronautas com chocalhos nos tornozelos.E as mulheres ora tinham vestidos curtíssimos, ora estas roupas aí da foto.

O troféu abaxi foi para o Joffrey ballet. Quatro menininhas e um menino dançando um balé que não vale a pena comentar. Decepção ver uma das escolas mais tradicionais americanas levando seu nome meio de qualquer jeito.

Me forcei a ficar até ver o samba. Queria ver que samba que estão vendendo aqui por NY. Uma morena maravilhosa, linda e brasileira, na frente sambando. E um monte de americana .... .... .... atrás tentando, fazendo o seu melhor para sambar. Não adianta. Tem certas coisas que são culturais. Tinham pouquíssimas que davam conta. Mas o bloco em geral era bonito e dava para ver que era um bom trabalho de divulgação do Samba brasileiro.

Também passou o tal do Zouk, que eu nunca tinha visto mais gordo, e espero nunca mais ter o desprazer de ver.

Um monte de dança do ventre. Ás vezes lindo, as vezes de gosto duvidoso. Jazz, musical (o BDC que levou e tava sujo), dança moderna, contemporânea, hip hop.

Sapateado. Um grupo só. A escola pulse. Sapatear no asfalto já é algo sujeito ao desastre. O som fica próximo ao de uma unha arranhando na lousa. Mas fiquei chocada com a bagunça. Tudo bem que era um grupo grande de gente de níveis diferentes. Isto é normal. Então eles passavam andando aí paravam e dançavam o shime shame (uma sequência de sapateado que pode ser dançada por todos os níveis e é bem codificada). Mas estava tão sujo. Eu quis chorar. Os alunos mais fortes aceleravam no meio do passo e gente mais iniciante fazia cara de assustado e tentava dublar.
Já deu para ter uma imagem.

(Obs: Eu não estou dizendo que as escolas são ruins, mas estou fazendo uma descrição verdadeira e profissional, come me cabe, das performances que eu presenciei. E poxa, eu dei aula de sapateado nos meus últimos 3 anos.)

Numa das performances da Caporales tinha um blocão de mulheres dançando com vestidos curtinhos. E o local estava cheio de fotógrafos passando pela mesma ala da parada. Estava eu olhando a dança, feliz da vida. Quando a menina que estava do meu lado puxa a cabeça de um homem que estava dentro da parada e começa a dar tapa e gritar com ele. Eu tomei um susto enorme, mas demorei dois segundos para entender.

Como tem gente grosseira e inferior ainda neste mundo. O homem estava com uma máquina fotográfica normal, mas como ele fazia pose de fotógrafo ninguém estava reparando nele. Era um velho de cabeça branca agachado, filmando por de baixo das pernas das meninas.

A garota do meu lado estapeou ele e gritou. Ai o cara levantou e veio pra cima dela ( e de mim!) xingando, e depois continuou andando devagar e filmando. E toda a mulherada que estava ali por perto ficou possessa. Mas o cara se mandou rapidinho. (E tinha uma grade no meio - não dava para ninguém seguir ele). Enfim. Horrível.

Mas ok. Foi rápido, as meninas estavam de collant e meia calça por baixo, e elas estavam dançando tão lindamente que elas sequer se deram conta desta mosca no caminho delas. E é isso que importa.

Fora esta situação nada a ver, tudo ocorreu muito bem. Foi uma ótima maneira de começar a dizer tchau para NY. Após uma semana de chuva, abre o sol, eu como crepe, e vejo um monte de dança diferente.

Como há riqueza nas possibilidades do corpo em movimento, não?

E então voltei para casa, entrei no metrô, e um cara inteiro vestido de dourado - incluindo as botas, os óculos escuros e a cartola alta - sentou do meu lado. E entram os Mariachis da linha N e R para fazer a trilha sonora da minha vida.

Estou morrendo de saudades do meu Brasil. Mas confesso que vou sentir muito a falta desta maluquice de cidade que eu também chamo de casa.

Tuesday, May 17, 2011

Balanço do ano.

Como começar?

Passei os últimos dias sem escrever porque tive que digerir algumas informações.
E para isso eu precisei gastar tempo fazendo nada. Ou qualquer outra coisa que fosse inútil.

Na semana passada tive minhas últimas aulas do semestre (neste formato que eu vivenciei ao longo do último ano). E desde que eu moro aqui e vivo sob este sistema educacional meu calendário está funcionando americanizado.

O meu primeiro ano de mestrado acabou. Tirei férias por uns dias.

A partir do ano que vem toda a estrutura do meu curso fica completamente diferente, o que significa que eu vou ficar perdida de novo por pelo menos 5 meses.

....

Na semana passada tive aulas segunda-feira e depois não tive nada na terça e quarta (em que eu me proibi de escrever no blog porque eu precisava estudar). Fiz a minha última prova na quinta. Na music final do semestre anterior (a que caiu no dia do meu aniversário) eu passei 5 hs fazendo a prova. Então na quinta passada eu cheguei preparada para o pior. Mas até que foi tranquilo, o professor amoleceu.
Na sexta eu fiz um picnic no Central Park com algumas amigas e fui pegar os vídeos dos meus trabalhos na faculdade.
No sábado e domingo eu passei praticamente todo o tempo assistindo filmes. Aluguei cerca de uns 15 filmes e fui assistindo... (Porque lógico que eu tive que compensar os 4 meses sem tv e sem assistir nenhum filme em um único fim de semana).
E segunda e terça desta semana eu comecei a colocar a vida em ordem. Comecei a fazer mala, tive um ensaio, aula de final cut, coisas que eu me arrumei. Sarna para se coçar.

....

Mas deixa eu voltar de novo no tempo...

Terça-feira passada: Meeting with Faculty.
Eu na frente de todos os professores, durante 10 min. Sabia lá Deus para o quê.

Cheguei quase atrasada. (E olha que desde que eu vim para cá eu sou um primor de horários). Peguei um táxi para conseguir chegar e falei para o taxista: "Preciso estar do outro lado da cidade em 10 min. Corre. Please". Foi a primeira vez que fiz isso por aqui. O taxista quase dirigiu como eu.

Enfim, entrei na sala e lá estavam: Phyllis (composição), Kay (teatro), o chefe de departamento, uma professora de balé, meu advisor Jim, o professor de música, a Deborah Jowitt, e duas professoras de contemporâneo, a Pam e a Renné.

Todos sentados em cadeiras formando um círculo. E uma cadeira vazia a minha espera.

Cheguei tão esbaforida que não tive nem tempo em me preocupar com o formato fadado a possível desastre.

Sentei.

Todos calmamente olhando para mim e eu olhando de volta curiosa, pronta para ouvir todo mundo despejar coisas em mim.

Então o chefe de departamento, com a sua voz calma e conversativa me perguntou: E aí Carol? O que você tem para nos dizer? O que anda acontecendo?

Eu respondi surpresa: Mas sou eu que tenho que falar?

Sim.

Em 1 segundo eu organizei minha cabeça e abri minha torneirinha de asneira e falei por 5 minutos.

E foi aí que eu tive a revelação... ou o balanço do ano.

Então vamos com uma adaptação do meu discurso aqui também:

Bom. Quando eu cheguei aqui eu não tinha a mínima idéia de como eu tinha sido aceita neste programa. Eu tinha dúvidas se eu tinha qualidade, se eu era boa o bastante para estar entre gente que me impressionava tanto.
Eu tive muito medo.

Mas aos poucos fui descobrindo coisas novas em mim mesma.
Eu tive coragem de tentar conseguir alcançar as coisas que eu achava que eram meus próprios limites, e cada vez que eu tentava uma coisa eu me surpreendia ao ver que eu não só era capaz de fazer aquilo que eu tinha medo de tentar, como eu era muito melhor do que eu esperava.

Foi um processo de descoberta comparando o que eu era, o que eu achava que eu podia ser, e o que eu de fato sou: alguém com capacidades ilimitadas de mudança e desenvolvimento.

Comentei como eu me sentia perdida no Brasil. Num limbo onde a minha única possibilidade era dar aulas. Eu amo dar aula. É uma paixão enorme. Só que exatamente por eu ter esta paixão por dar aula que eu me cobro quanto ao meu próprio conhecimento.

Como alguém que tinha acabado de sair da graduação, sem experiência de mundo de dança, pode achar que sabe alguma coisa?

E foi aí que eu tomei esta decisão de vir para cá. Nunca me senti encaixando em nada no campo da Dança brasileira. Sempre fui muito criticada. Sempre me senti comparada e menosprezada.

Aqui não.

E fui isso que falei para os professores.

Quando cheguei estava com medo. Vim preparada para o pior. Mas nunca me compararam com nada, a não ser com os meus velhos padrões.

E o ambiente desta faculdade foi propício para me cercar de pessoas extremamente talentosas, que admiro muito, e me servem de inspiração. E ao mesmo tempo a escola me deu suporte para eu me sentir feliz e pronta a realizar novas coisas.

A Carol que entrou um ano atrás na NYU, que deixou a família para atrás, e veio trazendo medos, não existe mais.

(Isso não significa de forma alguma que sou a senhora-positiva-sem-medos, mas só que agora eu sou feliz e paciente com as minhas dúvidas. Faz algum sentido?)

Então continuei a falar e disse que agora quando me perguntam: E aí Carol? O que você vai fazer? Você vai continuar em NY? O que você quer fazer depois do curso? Etc.

Eu não me desespero, e eu respondo com todas as letras:

Eu não sei!!!

Mas olha que maravilha?

Tantas portas. E basta ir atravessando todas que eu vou achar mais portas ainda. Sem andar para frente a gente não enxerga onde as coisas vão dar. Só dá para ver um pouquinho de cada vez. E ser paciente enquanto seguimos andando.

A primeira coisa que eu gostaria, óbvio, é dançar.

Eu já tinha desistido de mim mesma. Eu sei que eu não sou nenhuma maravilhosa em técnica, tenho muitas dificuldades, então eu vim para cá com a esperança de dançar um pouco durante o curso e depois estar preparada para fazer outras coisas.

Mas não teve jeito. Eu agora acredito que eu posso entrar em algum lugar. Dançar nem que seja um pouquinho em alguma companhia pequena.

E neste meio tempo eu contínuo com meus projetos coreográficos e de video-dança. Que tal?

E se eu vou voltar para o Brasil? Claro que sim. Vou tentar ficar aqui um pouco mais, porque por aqui é mais fácil deu me sentir em casa dançando. No Brasil eu me sinto um alien.

Mas seja a porta que for. Eu vou entrar.

E quando eu terminei de falar, minha amada professora de composição, a Phyllis, deu um sorriso e disse que depois de tudo que eu falei eles nem precisavam falar nada...

Mas é lógico que eles todos falaram.

E foi muito bom, após um ano de trabalho árduo ouvir um feedback de como estes meus professores me enxergaram. E o que eles acham dos meus sonhos.

Eu agradeci emocionada pelo fato de estar ali. Foi a primeira vez que eu tive a oportunidade de dizer em voz alta o quanto eu sou grata por ter sido aceita neste curso e como isto é importante para mim.

Em retorno recebi muitos comentários, a maioria positivos, sobre a minha postura e meu desenvolvimento.

Meu chefe de departamento disse que nunca tinha pensado em mim como alguém que tem medo.

E meus professores de técnica falaram para eu não me colocar limites. Que eu sou nova e para eu achar minhas maneiras de fazer as coisas.

E então a Reneé, que me viu improvisando uma vez só, me disse: Você é excelente improvisando. Use isto. Esta é sua forma de explorar técnica.

Já estou usando. Achei minha ferramenta favorita.

E a Phyllis com as suas pérolas... Ela falou na vozinha aguda mais engraçada que existe, que teve muito trabalho comigo. Que no começo ela teve vontade de pegar uma faquinha, abrir minha cabeça e olhar lá dentro, pegar umas porcarias e jogar fora. (E ela falou tudo isto fazendo gestos explicativos...) Dá para imaginar? Ela é uma velhinha de meio metro com cabelo loiro elétrico que coloca medo em qualquer pessoa. Mas eu absolutamente amo ela. Tive muitos professores bons na minha vida, mas a Phyllis é sem dúvida nenhuma a professora que mudou minha forma de enxergar, e de dançar.

Meus cadernos são cheios de quotes das frases dela:

"Don't let yourself interfere in your art.. Let yourself merge in your art!" - Phyllis Lamhut, May 5th


Enfim.

Saí da minha conversa de 10 minutos tão feliz e tão realizada.
Não tenho a mínima idéia de onde minha vida vai parar, mas estou simplesmente andando e indo em frente.

E divido isso com vocês aqui meio com vergonha, porque é muito pessoal.

Mas ao mesmo tempo, conhecimento é para ser dividido! E mesmo quem não faz dança, ou não tem nenhuma ligação com arte, pode tirar algo desta minha experiência.

É o fato de acreditar em si mesmo. Como meu pai dizia lá atrás para mim: não se mostrar nem mais do que você é, nem menos. Mas sempre buscando crescer e dar o melhor de si a cada dia. E aí, por mais que a vida seja dura, dificuldades acontecem, a vontade continua nos guiando.

E quem somos nós pequeninos para saber onde vamos parar? Temos mais é que seguir sonhando e buscando.

Algum dia a gente chega em algum lugar.

Algum dia eu chego.



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